Cinco “pecados capitais” de um piloto

Foto: Plinio Lins

Foto: Plinio Lins

Por Sylvestre Goux (MentalPilote) –

Há posturas perigosas do piloto que são seus cinco ‘pecados capitais’.

Estar apto para o vôo não é mais do que uma questão de licença, de experiência recente, e de condição física. Mas além disso, as suas posturas influenciam as suas decisões, e portanto a sua própria segurança. As ‘posturas’ aqui em questão são disposições individuais para responder às pessoas, aos acontecimentos e às situações diversas.
Desde os primeiros estudos sobre o comportamento dos pilotos, há mais de trinta anos, os especialistas identificaram cinco tipo de atitudes perigosas. É sobretudo o estudo dos acidentes que permite aos investigadores determinar a periculosidade evidente em alguns comportamentos. Numerosas autoridades aeronáuticas impõem aos pilotos que se tenha consciência dessas cinco atitudes, e elas deveriam ser tema de questões em exames teóricos, desde a primeira habilitação de piloto privado.

Essas cinco atitudes perigosas são:

-IMPULSIVIDADE: “Rápido, rápido, rápido.” O piloto impulsivo sente a necessidade de fazer tudo de forma acelerada e sem intervalos. Ele não avalia antes o que ele vai fazer, e faz logo o que vem na cabeça.
-INSUBORDINAÇÃO: “Não me diga o que eu tenho que fazer.” O piloto insubordinado acredita que as leis, regras e procedimentos não são úteis, pelo menos para ele. Ele pensa que ninguém pode lhe dizer o que deve fazer.
-INVULNERABILIDADE: “Isso não vai acontecer comigo.” Alguns, ainda que digam o contrário, pensam que os acidentes só acontecem com os outros. Os pilotos que pensam assim estão mais sujeitos a assumir riscos, pois, apesar de saberem que acidentes acontecem, eles não se sentem abrangidos pela possibilidade de provocar um.
-EXIBICIONISMO: “Eu sei fazer.” Os pilotos ‘machos’ procuram mostrar a sua superioridade sobre os outros; eles têm tendência a assumir riscos para impressionar os outros. Mesmo considerando essa atitude como típica de homens, há também pilotos mulheres que podem ser acometidas por ela.
-RESIGNAÇÃO: “OK, tudo bem…”. O piloto resignado não se sente capaz de fazer diferença diante do que acontecer. Ele tem tendência de atribuir os imprevistos ao ‘azar’. Ele deixa os outros agirem por ele, seja para melhorar ou piorar. Às vezes um piloto aceitará cobranças pouco razoáveis apenas para ser “simpático”.

E não é suficiente conhecer as cinco atitudes perigosas; é necessário também procurar permanentemente escapar delas. Portanto é preciso questionar-se sobre seus próprios comportamentos. Um momento chave para isso é quando precisamos tomar uma decisão considerável, tal como cancelar ou não um vôo, assumir ou não uma proa.

Examinemos nossa decisão para ver se ela não está prejudicada por um dos cinco fatores “fazedores de viúvas”. Avaliemos nossa perfomance pessoal por meio de uma análise clara dos nossos próprios conceitos de situações que são perigosas, para que, por meio disso, nos conheçamos melhor. É provável que certas posturas nos sejam mais familiares do que outras, todas podendo afetar o voo de alguma forma, de acordo com as circunstâncias.

Não é possível modificar profundamente nossas características pessoais, mas é perfeitamente viável modificar os comportamentos. Por exemplo, a nossa impulsividade pode ser combatida por meio de um trabalho constante. Para nos aperfeiçoar, devemos constantemente verificar se costumamos adotar posturas perigosas e verificar quando isso acontece, para que, quando acontecer, possamos aplicar o ‘antídoto’. Os descobridores dessas atitudes também definiram um ‘contrapeso’ para cada uma delas. E o objetivo aqui é também conhecer esses simples ‘antídotos’ tão bem quanto as próprias atitudes perigosas.

Aqui estão os ‘antídotos’ para essas atitudes:

-IMPULSIVIDADE: “Não tão rápido, vamos avaliar antes.”
-INSUBORDINAÇÃO: “Siga as regras, elas são úteis.”
-INVULNERABILIDADE: “Isso pode acontecer comigo.”
-EXIBICIONISMO: “Dar chance ao azar é loucura.”
-RESIGNAÇÃO: “Eu não estou sem alternativa; eu posso melhorar isso.”

Para concluir, se algum jovem piloto eventualmente tiver sido impressionado pela imagem que passam de certos pilotos ‘invulneráveis’, rebeldes ou excessivamente seguros de si, eu posso garantir, pela experiência que tenho, que as verdadeiras qualidades de um aviador são uma espécie de resumo desses ‘antídotos’: calma, respeito às regras, consciência dos riscos, humildade, persistência.

Bons vôos!

Sobre o autor: Sylvestre Goux é francês, comandante de A380. Foi instrutor de voo, examinador, e correspondente de Fatores Humanos. Tem 18.000 horas de voo e também já voou B727, B747, B737, B767, B777.

(Título original: Les cinq péchés capitaux du pilote)
Em parceria com mentalpilote.com. Tradução e reprodução autorizadas.

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