O excesso de regulamentação aérea

regris

Por Jean Gabriel Charrier –

As autoridades de Montana decidiram, na ausência de limitação de velocidade nas suas estradas, que o limite seria 80 mph (130 km/h). Durante os dois anos que se seguiram a essa medida, os acidentes fatais bateram todos os recordes, multiplicando-se por dois!

Muitas pessoas se puseram a pesquisar esse paradoxo, que não é específico da condução automobilística.

A primeira conclusão é que, quanto mais se tenta controlar os riscos por meio de regulamentos, menos as pessoas tomam consciência dos riscos que as cercam.

Então os regulamentos trazem uma insegurança? As coisas não são evidentemente tão simples.

No contexto da condução automobilística, os perigos são fáceis de perceber e evitar, bastando ao motorista adaptar a sua conduta de acordo com o bom senso, ou seja, adequar velocidade de acordo com o ambiente de tráfego: um dia ele andará mais rápido e outro dia mais devagar. Isso implica igualmente que ele saberá adaptar sua conduta a outros parâmetros além da velocidade, por exemplo, aumentar o espaçamento para outro carro em pistas escorregadias. Por outro lado, com uma limitação imposta por regulamento, a tendência é que ele se sinta protegido e ande na velocidade-limite quaisquer que sejam as condições. Ele não se questionará sobre o que ele deve fazer para se adaptar ao ambiente.

Em aviação desportiva, na ausência de radar, de procedimentos, de equipamentos, de qualificações, a consciência dos riscos se torna primordial. Efetivamente, o próprio piloto adapta suas práticas ao seu ambiente: um piloto de avião não parte em navegação com 3 km de visibilidade, um piloto de planador fica no chão quando o teto está muito baixo.

Em aviação comercial, a atividade se torna mais complexa, e o nível de exigência de segurança necessita de numerosos processos de gestão de riscos. Os regulamentos definem então quais os parâmetros robustos de voo, baseados em anos de experiência e padronização de métodos… eles são essenciais.

Se entre esses dois extremos existe um equilíbrio sensato entre o peso do regulamento e os riscos a administrar, é a consciência dos riscos que deve ter prioridade.

Há regulamentos e suas pertinências. O conteúdo deles deve ser adequado com a realidade dos riscos. A CAA britânica (Civil Aviation Authority) analisou o impacto do regulamento FCL1 e concluiu que sua implementação não causou nenhum incremento sobre a segurança de voo. É necessário lembrar que essa regra era oriunda de todo um processo de padronização dos regulamentos europeus.

O piloto pode se ver envolvido em práticas ou obrigações às quais ele não está acostumado porque nem sempre elas são necessárias ou adaptáveis ao seu contexto de voo. Isso desacredita um pouco o fundamento das normas, e por falta de experiência ou por qualquer outra reação, elas podem se tornar como a água que transborda de uma banheira muito cheia ao colocamos um bebê dentro: tal regulamento ou tal procedimento não serve para nada.

Os regulamentos são necessários, mas eles possuem limites na sua eficácia, e podem provocar efeitos perversos.

A segunda conclusão é que uma regulamentação inapta – que às vezes é sinônimo de infantilização – traz uma degradação dos comportamentos adaptativos do piloto (como no exemplo de Montana). Quando as regras não são suficientemente necessárias, elas adquirem pouca eficácia, ou então se degradam, caso já existam anteriormente. Porém, elas são particularmente importantes em atividades de alto risco onde os contextos são bem específicos e frequentemente exigentes.

Bons voos!

Sobre o autor: Jean Gabriel Charrier é  piloto de avião, de planador e de acrobacia, piloto de linha aérea e inspetor de voo na França. Possui 13.000 horas de voo, dentre as quais cerca de 10.000 como instrutor.

(Em parceria com mentalpilote.com. Tradução e reprodução autorizadas)

.

Anúncios

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s