Acidentes Brazucas – Reflexão de um aviador que viu muita coisa (e segue vendo)

Foto: G1

Foto: G1

Por Sepé Tiaraju Barradas

Chuva forte, volto para a base e ao entrar no meu alojamento, ligo o computador, meu principal meio de comunicação com o mundo fora do Chapadão do Céu. Assim que abro, um amigo também piloto me chama no chat…”os caras do RV7 fizeram uma de assustar aqui.. foi por pouco!”. Dias depois, na mesma e rotineira sequência, abro o Facebook e vejo o chat com o link da noticia: os caras bateram… morreram 2.

Aí fico a pensar: quantos e quantos se foram da mesma maneira, e quantos ainda terão que ir para refletirmos e acharmos uma solução? Pensamento fugaz, lembro de vários outros casos similares… Glasair do Carvalho, Raphael Iodice no T6, Botelho no Trojan…. Redig e tantos outros… tantos mesmo. Ai lembro do que o Filipe Rafaeli falou esses dias…”Acrobacia é perigoso!”… Caramba… será que ele estava brincando com as palavras ou falou uma verdade? Ou será que o problema não é a acrobacia, mas são os aviadores e seus egos?  Temos nós brasileiros um perfil estranho…

E nos achamos!

BRASILEIRO É MAIS PÉ E MÃO QUE OS GRINGOS“.

Mentira!

Temos sim alguns talentosos pilotos mas a diferença com os gringos não está no pé e mão e sim na falta de DOUTRINA. Somos bons. Mas o pior é que achamos que somos excelentes. Os gringos, não… eles são Standard (mesmo tendo talento) e se comportam como Standard. Leem manuais, coisa que poucos aqui fazem a fundo. Procuram instrução, e, por sua vez, tem quem dê a instrução. Sem “panos pretos” e sem competições de egos. Aqui, quem tem um olho é rei e joga areia nos outros para permanecerem cegos.

Temos o MAIOR ÍNDICE DE ACIDENTES NA AVIAÇÃO AGRÍCOLA DO MUNDO! Falo isso para explanar o problema comum a aviação agrícola e acrobacia: A FALTA DE AUTOCRÍTICA E BOM SENSO dos aviadores… A FALTA DE PREPARO… Pagamos o seguro mais caro do mundo das aeronaves Air Tractor, por única e exclusivamente FALTA DE COMPETÊNCIA TÉCNICA de seguir um simples manual. Somos os “improvisadores”, e contamos sempre com a sorte. Somos relapsos com as boas práticas e com o bom senso. Na acrobacia , só nos últimos 3 anos, quantos acidentes quase que totalmente evitáveis tivemos? E quantos previsíveis?

Não estou “metendo o pau” gratuitamente nas pessoas (afinal, infelizmente pagaram seus erros com a vida).  Cito casos reais! Um Fabio Ratão compra um Eagle, é praticamente autodidata, e se mata num erro primário em um SHOW AÉREO… O Cmte. Botelho compra um Trojan e se mata por empolgação… Quanto a esse último, tive a oportunidade de voar agrícola na fazenda dele ano passado em Nortelândia, e disse a ele, ao vivo e a cores: “O senhor está precisando de instrução para não se machucar!”… e em troca recebi a expressão do tipo “você sabe com quem e o que esta falando?” Não me intimidou, e nunca mais falamos… Até que um dia, dentro da ANAC em Brasilia, recebo a noticia do acidente…
Então criam-se ‘carteiras’ de Acrobacia (ainda hoje um mistério burocrático)… Uns tem, outros não. Mas carteira não voa, e nem aumenta a segurança… ainda mais nos moldes criados aqui.

Nos States, os gringos não tem essa besteira, e lá o índice de acidentes em acrobacia é baixo…e voa-se muito mais que aqui. O Show Aéreo la é coisa séria, e para voar em show é preciso cumprir uma carreira passo a passo. Aqui, não… compra-se um avião, e dependendo da grana, compra-se mais que um Formula 1 dos céus. Mas tecnicamente, pouco se investe. Novatos mal compram aeronaves ilimitadas e logo metem a cara no show aéreo, como um verdadeiro karaokê. E cada vez mais com “aviões de ponta”, tecnicamente falando.

Temos que mudar nossa cultura acrobática e aviatória em geral, temos que ser mais parceiros uns dos outros, a ajudar os novatos a escalarem os degraus sem atropelos… com segurança e bom senso sempre.

O que há por aí de proprietário de avião de acrobacia ilimitada que está ‘de fraldas’ e cada vez mais ousado, sem respeitar o tempo das coisas… Experiência não se compra nem se acha: se cultiva como um gramado. Quando se é novo, não se tem experiência, e sem experiência se faz um monte de coisas erradas.

Vou só listar uns lembretes que já passaram por nós e volta e meia se repetem… Faço isso em memória deles, e para evitar ou ajudar a abrir os olhos de todos para que essa lista não cresça…

José Angelo Simioni – Snap/Spin accident T6
Roberto de Arruda C. Rodrigues – Accidental Spin on final approach Eagle
Jose S. Carvalho – Tounneau mal feito a baixa altura num Glasair
Redig – Spin T6
Raphael Iodice – Tounneau mal feito a baixa altura num T6
Cardoso – Spin num One Design
Gustavo Arbizu – perda de controle em giroscopicas em um SU 29
Cesar Albuquerque – Giroscopicas SU 26
Julio Benvenuto – Stall secundário Extra 300
Jorge Marciniak – Tounneau mal feito a baixa altura em um Globe Swift
Fernando Botelho – Tounneau mal feito a baixa altura em um T28 Trojan
E mais de uma dezena de acidentes, dos quais não recordo os nomes e fatos, mas que levaram um sem numero de aviadores apaixonados …

Para aumentar a segurança, só há uma saída… VOAR, VOAR MUITO, MAS VOAR SEGURO!

A ideia repressiva da ANAC, sempre que aparecem acidentes, é de que, para aumentar a segurança, deve-se reprimir o voo…
A formação básica tem que melhorar, e a formação específica, entre elas a acrobacia, tem que ser melhorada. E todos nós temos que fazer isso.

Eu, você e todos que são aviadores de alma, temos que fazer algo… O QUE?

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Sobre o autor: Sepé Tiaraju Barradas brevetou-se em 1991 no Aeroclube de Alegrete e possui atualmente 12.000 horas de vôo. É piloto agrícola e de combate a incêndios, e é também praticante de acrobacia aérea. Email: sepebarradas@gmail.com
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17 Respostas para “Acidentes Brazucas – Reflexão de um aviador que viu muita coisa (e segue vendo)

  1. Cmte. Cajango na direita…na esquerda um manicaca…tounneal baixo altura…da direita tenta desfazer a manobra…4 mortos um ferido grave o manicaca…sobrevive ileso só um (mecanico)…..BARON 58…Outubro 2009 …Anápolis.

  2. Parabéns Sepé, gosto de seus textos, inteligentes, português claro, e com conhecimento de causa. Continue escrevendo sempre, no intervalo de seus voos. Abrços

  3. Disse tudo Sepé!!! “voar,voar e voar muito, mais voar seguro”
    show de texto e exemplos de nosso meio de convívio!

    Guilherme de Napoli

  4. Parabens pelo artigo…REAL e VERDADEIRO !!! Esse pessoal precisa aprender a RESPEITAR a maquina, o tempo e os conselhos dos “mais velhos”….
    Abraço Reynor/ SDRK

  5. O problema é do BRASILEIRO como um todo. Temos um país lindo, mas habitado por um povo escasso de cultura. Já teve cultura, mas de uns tempos para cá descambou tudo! É inegável que nosso avós viveram num país muito melhor do que o atual! Por que?
    Porque agora o que é valorizado aqui é o SAMBA, o REBOLADO. Aqui um pé de jogador de futebol e o traseiro de uma mulher rendem mais notícia do que tudo. Nada de cérebro, nem de inteligência.
    Aí vem o governo preguiçoso, e prefere, ao invés de dar EDUCAÇÃO E ÉTICA, simplesmente proibir tudo, desde ter uma arma de fogo em casa até dar palmada no filho. São coisas neutras, que existem em países civilizados, mas que brasileiro NÃO SABE USAR.
    Nem usar estradas brasileiro sabe, a maioria dos acidentes é de pura barbeiragem! Carretas caem em ribanceiras sem nenhum outro motivo a não ser a burrice do motorista! E isso quando não matam outros que não tem nada a ver com a história!
    E com acrobacia não seria diferente!

  6. CARO AMIGO SEPE, GOSTEI DE VER SUAS DECLARAÇOES, EU QUE NAO TENHO TAMANHA ESPERIENCIA SUA, JA VI E JA LI MUITOS CASOS DE ACIDENTES FATAIS POR FALTA DE RESPONSABILIDADE , ESPERIENCIA E AQUELA COMPETIÇAO DE QUE SE FULANO FEZ EU TAMBEM FAÇO…
    VEJO ALGUMAS PESSOAS FALAREM QUE PILOTO AGRICOLA EH TUDO DOIDO, E FICO INDIGUINADO COM ISSO, POIS APESAR DE VOARMOS EM CONDIÇOES MAIS CRITICAS, TEMOS SIM CONDIÇOES DE VOAR COM SEGURANÇA USANDO PADROES STANDARD, MAS MUITOS AO CONTRARIO DISSO PREFEREM SER VISTOS COMO OUSADOS E LOUCOS, ALGUNS ATE BONS MAS QUE GERALMENTE ACABAM VIRANDO ESTATISTICA, MAIS UMA VEZ GOSTARIA DE PARABENLIZADO PELAS SUAS AFIRMAÇOES E ESPERO QUE UM DIA CONSIGAMOS ALCANÇAR PADROES DE SEGURANÇA MAIS ACEITAVEIS NA AVIAÇAO EM GERAL.. GRANDE ABRAÇO.

  7. Primeiramente parabéns pelo texto, tive a oportunidade de fazer meu PC, MULTI e IFR nos EUA em 2012, no final fiz algumas horas de acrobacia com um SU29, avião que pertencia a um grande piloto de shows aéreos e com um currículo de simplicidade, humildade e mais de 20 anos em acrobacia. Tive os melhores exemplos de segurança e muitas aulas teóricas sobre acrobacia passo a passo antes de decolar com ele. Continuo batendo na tecla, o meu instrutor americano de acrobacia era altamente instruido para tal e com uma humildade absoluta para passar todo conhecimento sem medo, afinal ele vive numa terra de talentos, estes metódicos e estudiosos, por mais que seja uma atividade que vive no limite.
    Abs
    Willen Magri

  8. Parabéns cmte. O que o sr. Falou é à mais pura verdade. “Voar com segurança”, uma coisa que eu ainda não consigo entender, como é possível no Brasil o piloto Hablitado CPD e CPR, voar aviões extremamentes rápidos como RV7, RV9, GLastar, sem ser exigido pelo menos o PP, “que eu ainda acho pouca experiência” pra um experimental que voa à 160 ou mais Kts.

  9. Parabéns pelo artigo. Muito, muito bom.
    Ainda que alguns cuidam do seu desempenho técnico, ainda há outros que se descuidam do seu aspecto físico, excesso de peso por exemplo. Não que o excesso de peso faça diferença no desempenho de sua aeronave, mas, piloto com cintura acima de 100 cm vai ter alguns problemas de ordem física que poderiam ser evitados. Enfim, piloto gordo é feio!

  10. Sepé, também fui agrícola muito novo, com 21 anos (XVII CAVAG – Faz. Ipanema, 1983) e pouquíssima experiência e também passei meus sustos, uns por problema mecânico (parada de motor na decolagem), outros por erro de julgamento etc…enfim, me considero sobrevivente. Quanto ao que vc falou em relação ao sistema de instrução e avaliação dos EUA, trabalhei muitos anos como instrutor / checador de simuladores (Nível “D”) para algumas das maiores empresas americanas de treinamento na Ásia, em dois equipamentos (Fokker 100 e B737NG / BBJ) e é exatamente isso. Eles têm tolerância zero para com “ases da Aviação”, “Reis do Pano Preto” etc.; interessa é o “standard”, o “training to proficiency” e – via de regra -, o sistema FAA está sempre se auto depurando. Lógico que as coisas não são perfeitas, volta e meia a agência solta uma resolução tipo “jogando virados para a platéia”, mas aí não fica de graça, tampouco. Tem AOPA, NBAA, FSF, NTSB e imprensa (realmente) especializada, para incendiar o debate, e – mais cedo ou mais tarde – o processo é aperfeiçoado. Não vôo mais no Brasil (Graças a Deus!), mas a impressão que me dá – pelo que leio – é de um sistema completamente à deriva e não é só no 91, 137 e aviação recreativa/experimental…

  11. Vou escrever o que falo sempre: “Se forem declaradas todas as horas voadas na aviação agrícola a estatística muda, enquanto forem escondidas as horas totais voadas a nossa estatística permanecerá errada.”

  12. Fui mecânico da FAB onde me aposentei. Hoje sou PPH em R-22 por paixão e noto que sempre que algo de ruim acontece há uma história de excessos. Li numa revista especializada alguém achando o cúmulo o que se paga de multa por invasão de espaço aéreo controlado. Ora, se multas altas fossem aplicadas também nos carros, não teríamos tantos acidentes. Baixem o valor das multas para ver o efeito. Nosso povo não gosta de leis e não aceitam ser repreendidos.

  13. Esta semana assisti a uns vídeos dos maiores desastres aéreos da nossa aviação civil brasileira.
    Alguns sons trazidos pelas caixas pretas antes da fatalidade e em muitos casos a provável causa foi uma falha humana. Não sou piloto e gostaria de ser, mas só de pensar que o início de um curso por aqui além de caro é inseguro, por falta de manutenção devida nessas pequenas aeronaves que chamamos de avião dá medo pois temos famílias e voar não pode ser um risco.
    Ao contrário, diz-se por aí que é o meio de transporte mais seguro que existe! Toda vez que entro em um voo comercial geralmente com minha família me pergunto como será o fim? Porque? A resposta está impregnada no rastro da nossa cultura e falta de punição. Vejam agora bem recentemente os pilotos americanos do Legacy, pizza no final. Quanto aos acrobatas de plantão não me pronuncio pois como disse não sei voar, deixo esse assunto para quem verdadeiramente entende.

  14. Conheço um aviador paulista chamado Sepé Tiaraju de Salles;quando o conheci ele voava um Mooney de um empresário de Santos,S.P.chamado Orlando Bernardo.isto há mais de quarenta anos atrás ;nos anos 70;nunca mais vi este cidadão.

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