A postura do piloto perante as ameaças

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O piloto, com sua experiência e também deficiências, vê-se constantemente diante de um objetivo, de um planejamento de voo, e também de circunstâncias exigentes, talvez até bastante exigentes, que colocarão à prova a sua competência. Nessas situações críticas existem atitudes ou condições particulares que regularmente vem à tona, que são frequentemente ameaças para o piloto, seja ele experimentado ou não. Essas situações comuns foram analisadas e listadas por um estudo, e apresentamos a seguir:

A PRESSÃO EXTERIOR

É sem dúvida um dos causadores de acidentes mais recorrentes. Você prometeu transportar seu amigo a algum lugar e de repente precisa cancelar tudo? Você foi até o hangar e e terá que voltar para casa sem voar? Todo mundo voa com 10 nós de vento de través e só você não voa? Você precisa sem falta realizar um voo de apresentação?

A RESISTÊNCIA A MUDANÇAS

É necessário às vezes se adaptar às modificações, mesmo que elas sejam contrariantes: escolher uma rota com desvios para estar de acordo com a meteorologia do dia, atrasar a decolagem ou até mesmo cancelá-la, aplicar um novo procedimento, etc, são coisas que não são tão fáceis de aceitar.

A NEGLIGÊNCIA

De um lado o rigor na preparação de seu voo e a realização do mesmo, de outro lado, deixar passar em branco coisas que acabam virando rotina, inclusive por causa de uma certa experiência. Os check-lists são efetuados com algumas omissões, e com isso diminui-se a margem de segurança de forma mais ou menos consciente.

OBJETIVO E DESTINO

O piloto tenta a todo custo chegar ao seu destino. Seu julgamento é influenciado pela insistência. Antes de sua decolagem ele vê uma melhora do tempo prevista pela meteorologia, mas deixa de ler um detalhe que lhe permitiria vislumbrar uma situação não tão boa quanto parecia. Em voo, ele não encontra outra solução senão prosseguir até seu destino.

PILOTO AQUÉM DO AVIÃO

Em um avião de características lentas e/ou ou piloto com pouco treinamento, as coisas se desenrolam mais lentamente. Mas em aviões mais rápidos, há casos de pilotos não estarem seguros de sua navegação, ou de não ter o domínio da aviônica, de ter de ficarem procurando frequências de rádio nos papéis… Com a atenção focada nesses contratempos, o piloto tem menos disponibilidade para perceber o ambiente e suas alterações: uma posição crítica que se aproxima, a degradação meteorológica, etc.

PERDA DE CONSCIÊNCIA SITUACIONAL

Chega um momento em que o piloto fica completamente perdido. Ele não sabe onde está, toda sua atenção é absorvida por preocupações que o impedem de perceber uma possível degradação de sua situação: munido de um GPS, ele se vê inadvertidamente voando sobre uma camada sem fim, ou dentro de uma nuvem cujas bases envolvem topos de morros.

FALTA DE COMBUSTÍVEL

Podem existir numerosas razões na origem de uma falta de combustível. Elas conduzem a situações no mínimo estressantes, ou também perigosas: um excesso de confiança, uma preparação incompleta, a ‘primeira vez’ que se efetua uma navegação tão longa, etc.

“VAMOS VER O QUE DÁ”

As condições de voo são mínimas, o relevo é considerável e o teto é baixo, mas ‘existe uma abertura logo ali’…’eu vou ver’. A meteorologia está medíocre, com rajadas de través na pista, mas ‘eu vou experimentar’. “Experimentar’, ‘ver no que dá’ exige que ao menos tenhamos uma porta de saída bem garantida, um plano B. Caso contrário, deve-se abster do voo.

PASSAGEM EM CONDIÇÕES DE INSTRUMENTO

Tempo não tão bonito, voo não tão alto, e logo surge um stratus, e logo mais outro: é uma passagem involuntária em situação de IMC (Instrument Meteorological Conditions). O voo IMC requer um treinamento sem o qual as coisas podem acabar mal. De acordo com um estudo realizado com cerca de duas dezenas de pilotos, o tempo decorrido antes da perda de controle do aparelho foi entre 20 segundos para os menos experientes e 480 segundos para os mais habilidosos: a média é de 3 minutos. Mas o fato é que todos perderam o controle do aparelho!

SAÍDA DO DOMÍNIO DE VOO

O piloto tem que se confrontar com uma situação para a qual ele ainda não tem habilidade técnica. Pode ser a perda de controle em uma determinada situação, seja um estol, uma ruptura de algo, etc. Os aviões são mais ou menos ‘pontuais’; alguns perdoarão os erros mais facilmente, outros nem tanto.

***

Alguns terão certamente notado que praticamente todos esses componentes podem se concatenar cronologicamente ou se embaralhar entre si. E efetivamente, numerosos acidentes são uma perfeita síntese de todos eles. Programa-se um voo com os amigos, mas devido à situação meteorológica desfavorável, o piloto espera o último momento para se decidir. Os passageiros estão esperando. A meteorologia não é ‘terrível’, e isso pode melhorar… Já em voo, o piloto se depara com o mau tempo, desce um pouco, mas mesmo com GPS ele não sabe exatamente onde se encontra… Porém ele quer seguir caminho, para não parecer um ‘bobo’…

O impacto do stress sobre a perfomance mental do piloto, ou seja, a sua capacidade de análise, de discernimento, de tomada de decisão, irá influenciar em praticamente todos as fases desse processo.

Um dia pare para pensar nesses diferentes fatores, e na maneira pela qual eles podem se interligar.

E tenha consciência de que, quando as dificuldades se acumularem umas sobre as outras, suas capacidades de julgamento diminuirão na medida em que seu stress aumentará. E que por outro lado, quanto mais você antecipar suas decisões, melhores elas serão.

Bons voos!

(Publicado originalmente em mentalpilote.com. Tradução e reprodução autorizadas)

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