A acrobacia profissionalizada

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Por Sérgio Fraga Machado –
(Texto escrito para o livro “Sonho de Voar, de Décio Correa, no ano de 1993. Reprodução autorizada pelo autor)
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Muito além da perfeita integração entre homem e máquina, exigida, por exemplo, na Fórmula 1, está o voo acrobático, que desfruta de uma dimensão a mais. Através da sublimação das potencialidades físicas e mentais do piloto com sua máquina, é possível explorar a infindável gama de combinações, entre arrojo, técnica e arte, todos à disposição do piloto no ar, com seu avião.

Não são raras as vezes que escolho o rio Guaíba e o por do sol como um pano de fundo para esses voos privilegiados, porque posso dispor de um Cap-10, um Eagle do aeroclube, ou o meu Citabria.
O Citabria tem um nome curioso. Passou um tempão até eu descobrir que Citabria, lido ao contrário, significa airbatic – acrobático. E alguém perguntou se a ideia desse nome foi a de chamar a atenção para o fato de que acrobacia é o ato de fazer tudo ao contrário. O oposto do senso comum. Quer dizer…com mau senso, com loucuras?

Lembro-me do início da minha acrobacia, nos anos 60, no Aeroclube do Rio Grande do Sul, quando ele era ainda sediado em Canoas.

De fato, naquela época o voo acrobático envolva-se numa aura de maluquice. Voar acrobaticamente, então, transcendia as fronteiras da imaginação. Invocava a grande coragem de fazer as coisas ao avesso…loucamente. Como se não bastassem as limitações das aeronaves de então, a pouca ou nenhuma técnica dos instrutores tornava a acrobacia aérea efetivamente uma coisa pouco prazerosa. Muitos colegas fizeram apenas uma tentativa e não gostaram, nunca mais voltando a pisar em um avião acrobático.

Creio que essas más experiências acabaram por fundamentar em alguns pilotos um conceito errôneo, e por isso mesmo antagônico ao voo acrobático, principalmente à acrobacia por prazer. Muitos daquela geração de pilotos, formados na minha época e que hoje comandam jatos Boeing, MD 11 e DC 10, tem, ainda hoje, essa opinião a respeito do voo acrobático.

Como na minha vida profissional dediquei-me à formação de pilotos, tive a chance de voar mais, de praticar a acrobacia de forma correta, responsável e baseada nos preceitos dos verdadeiros conhecedores dessa arte.

Assim, tive a oportunidade de aproveitar, na plenitude, a formidável liberdade dos pássaros. E de vivenciar situações que recordo com saudades.

Estava longe de casa, numa terra estranha. Eram 260hp propelindo o N6040U. À frente, num voo perfeitamente vertical, fiz girar o quanto quis um campo de arado e um silo. Segundos antes, subira num roll ao sensível comando do S-2B. Um hammerhead, deleite de todo piloto de acrobacia, e eis o território norte-americano à mercê do gaúcho de Porto Alegre. Tratava-se de um voo fora do box, numa competição que se realiza duas vezes ao ano em Sebring. O dia estava excelente, e eu precisava adaptar-me ao avião alugado, em que me apresentaria no dia seguinte.

Sentia um clima de total prazer, não apenas pelo domínio da aeronave, que me aceitava e com a qual já fazia corpo, mas também pelo inusitado da situação. Era um verdadeiro êxtase, gerado pela integração ao meio, ao avião, à atmosfera, à bela paisagem americana, ao silo e às pessoas que trabalhavam no campo. Com certeza algumas delas estavam olhando o aparelho que evoluía lá em cima. Porém, nenhuma poderia imaginar que aquele piloto, que desenhava linhas retas e curvas no céu da Flórida, nascera tão longe dali…

Em nova ocasião, o céu não estava tão azul, mas sim estrelado. Não podia ver as horas – certamente estava próximo da meia noite – quando vários foguetes começaram a estourar. Outro, mais outro, e logo eram centenas, ou milhares, até onde a vista podia alcançar. Cruzava veloz o primeiro minuto de janeiro, e eu tinha certeza de que ninguém como eu estaria a virar o ano bem alto, num avião aberto, com motor desligado, curtindo a brisa morna numa noite de lua. O único ruído era do vento, que servia de velocímetro para a fascinante sequência acrobática que, acreditem, é possível fazer à noite planando.

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A acrobacia ganha novos aspectos quando encarada como elemento importante para a formação de pilotos.
A partir de 1978, dediquei-me integralmente ao Aeroclube do Rio Grande do Sul. Fui contratado para trabalhar duro na transferência da escola, de sua sede original em Canoas, para o futuro campo de Belém Novo. A partir daí, no cargo de superintendente, pude estudar a fundo como instrutor, o comportamento e os fatores psicológicos envolvidos no ensino das acrobacias aos alunos.

Descobri o poder que um avião acrobático tem para definir quem é do ramo, quem realmente nasceu para voar.

Em Belém Novo, onde a escola está (1) equipada com bons aviões acrobáticos, franceses e americanos, não dispensamos essa instrução no currículo dos futuros pilotos comerciais. No primeiro estágio são ensinadas todas as ações corretas para recuperar a aeronave de atitudes anormais. Assim são denominadas aquelas circunstâncias em voo que, por razões variadas, uma máquina possa se encontrar e que não são do conhecimento do aeronauta comum. Num segundo estágio, são treinados a recuperá-las de uma situação dessas, e também criar situações atípicas voluntariamente, preparando-se, dessa forma, para enfrentar esses contratempos anômalos. Num terceiro estágio, a gama de manobras treinadas se amplia, buscando-se a perfeição e a coordenação ao longo de cada uma, enquanto são combinadas entre si. No quarto estágio, quando os conhecimentos teóricos e práticos do piloto já estão consolidados, pretende-se a perfeição geométrica, que, analisada do solo por juízes e comparada com uma sequência preestabelecida, garante ao aluno uma graduação absoluta do seu desempenho. É o voo acrobático de competição, o mais alto grau da evolução no treinamento acrobático.

Se as empresas de aviação comercial aprimorassem seus processos de seleção e levassem em conta a capacidade de adaptação e a perfomance do aspirante a seus quadros nesse tipo de voo, com certeza teriam equipes profissionais mais bem adaptadas ao seu trabalho, mais satisfeitas e mais profícuas. Afirmo isso, mesmo sabendo que atualmente esses pilotos só voam apertando botões e assistindo o chão passar através de tubos de raios catódicos em seus aviões automáticos.

Kemmler, um estudioso alemão do comportamento de pilotos da Luftwaffe e da empresa Lufthansa, escreveu sobre esse assunto, falando das indiossincrasias comportamentais geradas pelo afastamento do ato sensitivo de voar, quando combinado com um piloto não bem identificado com os requisitos do seu trabalho.

Toda informação que obtemos sobre o sucesso profissional daqueles que reputamos hábeis, e que naturalmente se entusiasmaram com a fase acrobática do curso, apenas consolida nossa opinião a respeito.

Houvesse uma efetiva aplicação do treinamento acrobático, como elemento do currículo e item determinante na seleção dos pilotos, e vários fatores positivos far-se-iam sentir ao longo da carreira do piloto comercial, incluindo a rentabilidade oriunda de operações mais perfeitas, sem falar nos acidentes que poderão ser evitados pela intervenção hábil e adequada do condutor que esteja técnica e psiquicamente melhor adaptado à sua função.

 

(1) No início da década de 1990.

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