Você é um “Rogue Pilot”?

Por Jean Gabriel Charrier –

« Eu não sei quando, nem como será o próximo acidente, mas eu posso prever quem será, e porque »

É o que nos fala Tony Kern, um antigo piloto da Força Aérea Americana (USAF), especialista em fatores humanos.

Esse artigo trata do termo Rogue Pilot *, que traz a ideia de um comportamento oculto de alguns pilotos, que não é tão ‘brilhante’ quanto a parte visível de suas qualificações, e que acarreta uma série de riscos que podem ser evitados. Alguns pilotos já são praticantes habituais disso. Outros, mais numerosos, de tempos em tempos se permitirão ultrapassar conscientemente certos limites.

* Tradução literal: “piloto bandido – desregrado – cretino – indisciplinado  “

FairchildB52Crash

Era um excelente piloto!

O referido autor toma como exemplo um piloto que era tido como excelente por seus mais próximos, mas que finalmente se matou em um B-52 (você certamente já viu esse vídeo). Acontece que esse piloto possuía os traços característicos do Rogue Pilot.  Ele efetuava perfeitamente seu trabalho, ele tinha os comandos na mão, mas, de tempos em tempos, ele se “liberava”, principalmente nas demonstrações aéreas. Apesar de suas “traquinagens”, ele sempre contava com o olhar benevolente dos outros pilotos, bem como de seus superiores. É o paradoxo de Tanguy e Laverdure, os famosos pilotos caçadores dos quadrinhos franceses (Nota do tradutor: Tanguy e Laverdure são dois personagens fictícios criados pelo mesmo desenhista de Asterix, sendo um prudente e o outro ousado, e que futuramente inspirariam o filme “Cavaleiros do Ar”). Isso acontece porque os pilotos normalmente são julgados por suas qualidades técnicas, enquanto que a maioria dos acidentes não acontece por problemas técnicos, e sim por comportamentos inadequados.

Ficar dentro de seus limites

Tony Kern demonstra, ao analisar numerosos acidentes, que a maioria dentre eles tem por origem uma ultrapassagem voluntária de certos limites, que acarreta num risco inútil que poderia ter sido evitado.

Perfis bem conhecidos

O perfil desses pilotos é conhecido na aviação, e dentre eles se destacam os pilotos invulneráveis, machões, alérgicos a conselhos, excessivamente resignados, impulsivos, ou improvisadores. Tony Kern vai mais longe, e nos diz que um piloto é antes de tudo aquilo que ele é na vida de todos os dias. Não aquilo que ele diz ser, mas sim aquilo que realmente demonstra ser através de seus atos no cotidiano. Para embasar essa tese, ele demonstra que os condutores que possuem muitos acidentes de carro sempre se encontram implicados, mais que os outros, em acidentes ou incidentes aéreos. Respeita o limite de velocidade? Reduz velocidade na chuva? Possui às vezes um pequeno lado indisciplinado no seu comportamento?

Nós compreendemos facilmente a existência dessa correlação entre aquilo que somos no solo e em voo, mas o que Tony Kern demonstra é que essa correlação é mais estreita do que nós pensamos. Isso me deixou intrigado, e comecei a analisar o comportamento de diversos pilotos que conheço bem, e … bingo! O bom amigo que era atrevido aqui embaixo, onde pastam as vacas, era igualmente atrevido em voo, e o amigo ponderado no solo… o ansioso… o ‘sei de tudo’… o tranquilão… o áspero… o legal… o profissional…

Fragilidades ardilosas

Todos nós conhecemos pilotos que entram facilmente em situação de risco previsível (os invulneráveis, impulsivos…). Mas existem igualmente os pilotos mais equilibrados que passam por pequenos momentos de fraqueza, de fragilidades que parecem inofensivas, mas que em uma situação específica podem colocá-los do outro lado da linha vermelha.

Para Tony Kern, o ego do piloto, ou seja, aquilo que está no fundamento da sua personalidade, é a alavanca principal desses comportamentos de risco inútil. Ele evoca igualmente a autoconfiança como sendo uma grande qualidade, mas que, quando é tingida por um ego levemente superdimensionado, pode se transformar em superconfiança: portanto, atenção com o sinal amarelo!

Situações ardilosas

Se o piloto, por desprezo às suas fragilidades pessoais (atitude, personalidade) é inclinado a sair de seu perímetro de segurança, existirão situações que poderão fragilizá-lo ainda mais um pouco, como a competição, a pressão exterior causada por outros que estejam olhando, ou um plano de voo que ele se recusa a modificar para adaptar a uma meteorologia pouco favorável.

Um coquetel explosivo

Quando muitas fragilidades se combinam, nós vemos aparecer um ‘coquetel explosivo’. Se a maioria dos acidentes acontecem quando o piloto ultrapassou certos limites (a começar pelos seus), então, antes de mais nada, é preciso definir quais limites são esses. No caso de um profissional, se trata geralmente de limites de seu regulamento de atividade, que é bastante restrito, e para o qual ele foi formado: ele é capaz de voar dentro de nuvens ou é autorizado a pousar até uma determinada intensidade do vento de través. É completamente diferente de um avião desportivo, no qual o próprio piloto é que acaba definindo seus limites pessoais. É capaz de pousar com vento forte de través, com rajadas? Sim ou não? Se o piloto não elenca seus próprios limites, é porque ele possui algumas das características do “Rogue Pilot“, e se torna assim mais vulnerável. E ele poderá passar por alguns sustos.

Organizações “Rogue”

O clube, a escola de pilotagem, a companhia aérea, são igualmente contagiadas pelo desrespeito às regras, ou por práticas inadaptadas ou subdimensionadas relacionadas com a segurança. O instrutor pode ser um “Rogue Instrutor”, com as fragilidades girando obviamente num âmbito mais controlado, mas deixando a abordagem do ensino num nível que não convém. Da mesma forma, diga-me quem é o presidente de um aeroclube, e teremos uma ideia das coisas que acontecem no aeroclube.

Alarguemos o perímetro de análise. Nós sabemos que existe uma relação estreita entre a atitude de segurança do piloto e seu país de origem. O “Rogue Pilot” não é mais do que a ponta do iceberg de uma população de pilotos. O tamanho dessa ponta vai depender do grau de maturidade da cultura de segurança aeronáutica do país onde se situe (sobre esse assunto, conferir “Culture at Work in aviation and medicine. Heilmreich- The link between safety attitudes and observed performance in flight. J.Bryan Sexton & James R. Klinect).

Os “Rogue Pilot” são numerosos?

Se você é envolvido com a aviação há um bom tempo, relembre todos os acidentes e incidentes que você já viu, e analise-os sob a ótica do “Rogue Pilot”, ou seja, o comportamento inadequado que acarretou a ultrapassagem do sinal vermelho. Alguns pilotos, pouco numerosos sem dúvida, parecem ter uma tatuagem “Rogue Pilot” na testa. Outros nem tanto. Eu conheci um que parecia não ser atingido por esse problema, mas que de fato entrou nas fileiras dessa categoria devido a diversos fenômenos durante sua carreira: era um piloto excessivamente otimista, portanto, tendente a se achar invulnerável. Sempre sorridente, nada podia lhe acontecer. Ele respeitava sempre os regulamentos, e apenas em algumas ocasiões decolava com pouco combustível, o que não é necessariamente perigoso. Mas esses itens quando estão em conjunto podem acender o sinal amarelo.

É necessário insistir sobre a ideia defendida por Tony Kern: ao lado de uns poucos pilotos que possuem o problema em níveis ‘patológicos’, há outros mais racionais e equilibrados que também já acenderam o alerta laranja algumas vezes – uma “Rogue atitude”, talvez até uma vez só, mas que foi sob responsabilidade deles!

A bola está com você

Um antigo campeão de voo à vela nos disse que ele já tinha visto muitos de seus amigos ‘se matarem’ em planador. Nas entrelinhas, compreendemos facilmente que muitos dentre eles haviam cruzado voluntariamente o sinal amarelo. Após essa primeira mensagem sobre os riscos inúteis da atividade de pilotagem, ele dizia, da mesma forma que Tony Kern, que nossa segurança depende principalmente de nós mesmos, da nossa maneira de agir, e eu acrescento: qualquer que seja a nossa experiência.

“Diga-me quem você é, e eu direi que tipo de piloto você é.”

Bons voos!

.

Rogue pilote

Esse artigo foi redigido a partir do conceito “Rogue Pilot”, descrito por Tony Kern em sua obra Darker Shades of Blue – The Rogue Pilot. Edições McGraw-Hill, 1999. O termo original “Rogue Pilot” foi mantido.

Jean Gabriel Charrier foi instrutor de avião, planador e acrobacia, piloto de linha aérea e inspetor de segurança de voo na França. Possui cerca de 13.000 horas de voo, e é titular de um diploma de Fatores Humanos em Aeronáutica. 

Publicado originalmente em mentalpilote.com. Tradução e reprodução autorizadas.

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4 Respostas para “Você é um “Rogue Pilot”?

  1. O problema é que… um ‘bandido’ nunca assume que está errado! Ele joga a culpa nos outros! Quem tiver a maturidade de se auto avaliar, vai aproveitar essa teoria. Mas quem realmente é bandido nunca vai achar que ele está errado e sim os outros. Obrigado por compartilhar esse material

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