Dos pilotos de linha para os volovelistas

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Por Jean Gabriel CHARRIER – Há algum tempo mostramos aqui um artigo sobre a inteligência dos pilotos de planador e sua capacidade de adaptação. Agora segue um novo texto que vem completar a compreensão dessas atividades respectivas. Seu conteúdo demonstra que a velocidade pode até ser um elemento a mais de complexidade, mas isso não justifica que esqueçamos que algumas máquinas são trabalhosas “usinas” movidas a combustível.

A comparação das diferentes atividades a seguir tem por finalidade mostrar duas dimensões essenciais nem sempre fáceis de gerenciar. São elas:

  • Suas tarefas – que são mais simples ou menos simples, e mais numerosas ou menos numerosas
  • A dinâmica do voo – isto é, o movimento permanente do seu aparelho dentro de um meio que está em constante mutação: você avança, mas o meio no qual você voa também evolui (meteorologia, tráfego, etc)

Essas duas dimensões, complexas e dinâmicas, serão simbolizadas aqui por meio de partituras de música, de acordo com a intensidade que ocorrem em cada tipo de voo.

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Um pequeno voo de final de semana

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Você pilota seu aparelho livre de quase toda interferência do meio externo. Céu de brigadeiro, sem espaço aéreo para gerenciar, sem trajetórias particulares a respeitar, enfim, é você quem decide o que vai fazer. Suas tarefas são simples: elas se resumirão à pilotagem – onde a prioridade será para a qualidade de pilotagem – e ao monitoramento do tráfego ao redor. Você voa em um meio muito ‘aberto’, ou seja, com poucas regras. Vez ou outra poderá estar diante de pequenos riscos, mas que estarão dentro do envelope de sua máquina.

Em outras palavras: Como um músico, é você quem compõe a própria partitura.

 

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Um voo de navegação para um aeroporto controlado

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Você possui o brevê de piloto privado e de vez em quando precisa gerenciar algumas situações nas quais surgem restrições: usar um corredor, entrar num portão de TMA, comunicar com o controle no momento oportuno, evitar uma zona de mau tempo, etc.

Em outras palavras: Uma parte da partitura lhe é imposta, mas normalmente você a conhece, e se adapta à parte que não conhece.

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Um voo IFR para uma TMA complexa

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Em alguns voos (como o IFR) o ritmo se acelera; você deve efetuar tarefas onde a frequência e a precisão aumentam: as trajetórias e as velocidades são impostas, as mensagens de rádio devem ser precisas e emitidas no momento correto, a leitura de fichas deve ser rápida e eficaz, etc. Ademais, a pressão do meio é igualmente crescente: voo em nuvens, tráfego mais denso, etc. Essa gestão do voo necessita de uma perfeita administração das rotinas de pilotagem (instrumentos), da utilização dos sistemas, da aplicação de procedimentos.  As restrições são mais fortes, a maioria das tarefas acabam sendo praticamente “suportadas” pelo piloto, no tempo e no espaço.

Em outras palavras: Sua partitura é densa e não deve dar lugar a improvisação.

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Uma aproximação em um aeroporto internacional

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A fase final de um voo rumo a um grande aeroporto e com um grande avião é também a fase mais ‘carregada’ de procedimentos.  Enquanto faz inúmeros procedimentos, a velocidade de algumas dessas máquinas pode oscilar em torno de 250kt (cerca de 500km/h). E com a máquina estando lotada, é necessário um perfeito gerenciamento dos automatismos. Ademais, as mudanças do meio ao redor se tornam mais intensas: o espaço aéreo fica denso, mais exigente, e evolui rapidamente.

E somando-se a isso, vale lembrar que existe uma outra diferença entre os pilotos de linha aérea e os não desportivos: é o fato dos primeiros voarem quase todos os dias. Qualquer que seja o tempo, estando em forma ou fatigado, com problemas pessoais importantes ou não… E às vezes todos esses aspectos negativos se acumulam.

A máquina voa rápido, tudo deve ser coordenado com o espaço ao redor, e igualmente com o outro piloto. É uma partitura de três linhas!

Em outras palavras: A partitura é densa, às vezes complicada e seu ritmo frequentemente elevado. A menor falta de conhecimento vai se transformar em uma desafinada, em uma perda de compasso (um erro).

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Essas operações equivalem a uma orquestra capaz de tocar partes de uma grande e complexa obra, e são partes que se repetem, como estrofes. E a improvisação, quando necessária, não é fácil.

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A pilotagem, a arte e a maneira de se manter em equilíbrio

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Na pilotagem de linha aérea, o piloto fica dentro de um sistema ‘desviante’, onde 70% das tarefas visam a manter o equilíbrio de tudo (ou seja, são contramedidas): ele deve curvar, subir, reduzir, comunicar, transferir, pilotar…no momento certo, nem antes, nem depois, sob pena de perder o equilíbrio, de desviar, de errar, causando situações indesejáveis. Inclusive os engenheiros de grandes aviões devem meditar bem sobre esse tipo de coisa…

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“…os ilusionistas atuam com inteligência (é necessário saber o truque) enquanto que os equilibristas atuam com arte. Dançar sobre uma corda é manter, é recriar, a cada momento, um equilíbrio, graças a novas e repetidas intervenções” (Emmanuel Kant)

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Finalmente, não nos esqueçamos do piloto de caça, que evolui ao mesmo tempo em um meio extremamente aberto, sinônimo de adaptação constante, com velocidades consideráveis, e ao mesmo tempo com numerosas tarefas para coordenar: é o caso de um líder de esquadrilha.

Bons voos!

Jean Gabriel Charrier foi instrutor de avião, planador e acrobacia, piloto de linha aérea e inspetor de segurança de voo na França. Possui cerca de 13.000 horas de voo, e é titular de um diploma de Fatores Humanos em Aeronáutica. 

Publicado originalmente em mentalpilote.com. Tradução e reprodução autorizadas (texto e gráficos).

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