Histórias do outro lado do mundo

Deserto de Kavir, Irã - Foto: Fabio Hollanda

Deserto de Kavir, Irã – Foto: Fabio Hollanda

Por Fabio Hollanda –

Meu amigo Plínio Lins, sempre que me encontra, me pede para contar-lhe da minha nova fase como “piloto expatriado”. Das histórias e experiências que vivencio fora do Brasil – algumas relacionadas à Aviação Comercial outras à Acrobacia Aérea. Pois bem, vamos dar início a algumas delas. Espero que gostem.

A vida de “Expat” tem suas vantagens e desvantagens, assim como as de um Piloto de Linha Aérea no Brasil. Uma das vantagens que vejo é a falta (ou pelo menos a diminuição drástica) da “vaidade aérea”, muito comum nesta profissão. No nosso caso, todos aqui já são Comandantes de Boeing 777 – não se têm que provar nada pra ninguém, e a palavra “senioridade” soa como algo estranho, visto que isso não existe quando falamos de um contrato de Committent fora do nosso País – todos estão no mesmo barco, na mesma condição.

E justamente por conta disso é que todos torcem e se ajudam mutuamente – independente da idade ou nacionalidade. A troca de experiência é dada em outro plano – todos falam o que realmente aconteceu, transmitindo as informações, sem o apelo quase heróico do tipo “se não fosse o Cmte aqui… bla, bla, bla”, que às vezes ouvimos nas rodas de algum bar próximo de um aeroclube ou aeroporto. Algo que realmente não tenho saudades.

Pelo contrário, o que se ouve é: “No aeroporto X, tome cuidado com Y taxiway”, ou “Quando estiver se aproximando do espaço aéreo tal, tome cuidado com tal setor, geralmente você será vetorado, para a cabeceira xx”, ou ainda: “Não se esqueça de brifar a tripulação quanto ao procedimento de descompressão que será mais demorado por conta do relevo, quando estiver sobrevoando tal país.”. Dicas valiosas para os “marinheiros de primeira viagem” como eu, vindos de outras regiões do planeta. Tudo é novidade.

Mas o mais interessante é quando nos sentávamos à mesa para o jantar – todos juntos, como se fôssemos uma família (e eles o foram durante um tempo) – e cada um começava a contar de onde veio, quais equipamentos voará, de como era voar “naquela época”, com eram tais procedimentos em determinados espaços aéreos daquela região ou país. As curiosidades de cada cultura e as “roubadas” que cada um entrou – e como se saíram delas – nos seus primeiro vôos mundo afora.

Esses profissionais estavam começando – nos idos das Décadas de 70 e 80 – nos seus respectivos países e que, como nós brasileiros, tiveram que aprender inglês “na marra” para dar continuidade as suas carreiras internacionais. Muitas belas histórias eram contadas nesta hora.

Que tal sentar a mesa e conversar com um ex-Piloto Militar Canadense, cuja paixão pela acrobacia foi descoberta pelo então Chefe do Esquadrão nos idos de 1978 e a convite deste foi voar os CT-114 Tutors, dando assim início ao Royal Canadian Air Force’s 431 Air Demostration Squadron – The Snowbirds… Após uma temporada, ele tornou-se Piloto civil e seguiu para Air Canada até a aposentadoria como Piloto Chefe e Cmte de B777 naquela empresa. Como ainda tem alguns anos de atividade pela frente – agora com 63 anos – decidiu continuar a voar em outras paragens. Disse-me que esta gostando da experiência.

Ou então a de um ex-Piloto da AeroMéxico que começou a carreira como Co-Piloto no Douglas DC-8 – cujos speedbrakes (que aumentam a razão de descida nos procedimentos de chegada) eram o acionamento dos reversores dos motores números 02 e 03 (os motores “internos”, por se tratar de um quadrireator) em vôo, algo inimaginável nos dias de hoje.

Ou ainda, de um ex-piloto militar de C-141 Starlifter americano que sobrevoou inúmeras vezes o Iraque na época de Saddam Hussein – sem nunca ter pousado – e que me disse: “Devo ter lançando uns 2.000 pára-quedistas nestas missões… a maioria foi a grandes altitudes, mas possuo alguns lançamentos registrados a 1.000 pés de altura, à noite”. Logo pensei quem devia ser mais “maluco”: quem pilota um quadrirreator daquelas proporções nesta altura ou os pára-quedistas que saltam dele (lógico que se tratavam de integrantes de Grupo de Operações Especiais – Sears, Ranger’s, Delta’s).

Também conheci um búlgaro, cuja paixão pela aviação o levou, quando  jovem, a visitar uma Base Aérea próxima a sua residência nos finais de tarde, depois de colégio. Disse-me que ia de bicicleta e que ficava sempre no mesmo lugar, atrás de um alambrado que dava para o pátio. Um dia, um dos Pilotos veio até ele – visto que o rapaz sempre estava lá – e começaram a conversar. Ele o trouxe para dentro e mostrou-lhe o seu Mig-23 Flogger, como o seu belo interior azul turquesa. Mal sabia que esse Piloto de Caça iria se tornar o seu sogro. Sim, meu amigo búlgaro veio a conhecer a filha deste piloto, com a qual ele se apaixonou e casou anos mais tarde. Se tornou copiloto da Balkan Air, voou os Tupolev’s  TU-134 (que se assemelha a um Fokker 100) e tornou-se Comandante de TU-154 (versão russa do B727). A empresa acabou em 2002 e ele foi para a Asiana (Coréia do Sul), onde ficou 8 anos voando B767, e de lá saiu para voar B777 na Singapure Airlines, por mais 12 anos. Agora está conosco na Jet Airways. Tem duas filhas e sua esposa o acompanha sempre que pode, um belo casal. É outra bela historia para contar a meus futuros filhos, penso comigo.

Conversei também com um Macedônio que viu seu país ser destruído devido à Guerra no Kosovo (1998-1999) e o Conflito da Macedônia (2001). E ainda, com um japonês, ex-piloto de teste da Boeing…

Diversos Back Grounds, diversas culturas. Histórias impressionantes!

Da minha parte, contava a eles como era América Latina – o Brasil em particular, obviamente – e como somos sortudos quando o assunto é clima. De como somos uma nação que havia voado apenas aeronaves americanas (Boeing, Douglas, Cessna’s, Piper’s) e que possuímos algumas poucas Fly-inn Communities – como a Faz. Bonanza, o Costa Esmeralda e Ipuã. Todos – sem exceção – abriam um sorriso quando lhe mostravam as fotos. Ficavam impressionados com a beleza natural do nosso país. Encantavam-se com a nossa paixão por pequenos aviões.

Outro Canadense – ex-Vice-Presidente da Air Canada – me chamou um dia de canto, depois de lhe mostrar algumas fotos, e me confessou que não estava ali “para ficar longe das reclamações da esposa e não ter que contar as telhas do telhado todos os dias”, como muitos, e sim para acumular o suficiente para a realização do seu real projeto de aposentadoria – comprar um Lake (aeronave anfíbia), cuja função será levar ele e a esposa, de lago em lago, pelo interior do Canadá, para visitar seus amigos – belo motivo para continuar trabalhando, pensei.

Enfim, bom saber que existe essa “aviação do bem” ao redor do mundo e que muitos compartilham essa paixão pela aviação – tanto pelas grandes naves, quanto pelos nossos queridos monomotores! Aliás, o ZFH (Christen Eagle II) fez sucesso por essas bandas. Todos queriam saber a sensação de se voar um biplano, um acrobático – de se “degustar” as três dimensões do vôo. O que rendia um bocado de histórias. O nome das manobras, quais as velocidades que eu usava e – principalmente – se podia leva mais alguém. Quando respondia que sim, quase automaticamente vinha um: “Se eu for ao Brasil, você me leva para voar?”. E eu sempre respondia: “Mas é claro Comandante!” – que privilegio é ser dono de uma pequena “máquina de sonhos” como o Eagle e poder ter no cockipt pessoas assim!

Não teve jeito, depois de um tempo não precisei nem convidar… eles mesmos já estavam ‘se convidando’ para conhecer o Brasil, a Faz. Bonanza, o Eagle – e, se possível, os meus amigos e suas aeronaves.

Quem sabe um “Expat Pilot Meeting 2014”! O que acham da idéia?

Bons vôos a todos!

Fabio Hollanda

Christen Eagle do Cmte. Fabio Hollanda

Christen Eagle do Cmte. Fabio Hollanda

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2 Respostas para “Histórias do outro lado do mundo

  1. Muito bom poder ter essa experiência, viver ao lado de pessoas com culturas diferentes, histórias inimagináveis e além disso tudo o aprendizado de cada um compartilhado para todos. Um dia espero poder sentar em uma mesa e compartilhar as minhas futuras histórias relacionadas a aviação. Grande abraço e parabéns pelo post.

Comentários

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