Voar sob pressão

Por Jean Gabriel Charrier –

A pressão exterior faz parte dos fatores mais comuns nos acidentes na aviação leve. Nos processos destinados a avaliar e identificar os fatores de risco de um voo, ela é um dos itens mais importantes a serem averiguados.

A pressão exterior influencia sua maneira de agir, modifica seu comportamento. Eis aqui alguns exemplos clássicos de situações ‘pressionantes’ que podem fazer você ultrapassar seus limites:

– Você tem um passeio programado com amigos, ou um voo particular planejado por um longo tempo;

– Você não quer decepcionar seus passageiros;

Você quer impressionar seus passageiros ou o público no solo;

– Você quer prosseguir até seu destino apesar das condições meteorológicas que se degradam: “Seria bobagem voltar, eu estou tão perto“;

– Você vive a situação como um desafio pessoal: “Eu posso fazer isso“;

– Você deseja se mostrar à altura daqueles que te rodeiam;

– Você está numa competição.

Quase todas as nossas atividades são influenciadas pela pressão exterior. Ocorre também com profissionais de outras áreas: medicina, segurança, etc.

Os pilotos com pouca maturidade são quase sempre menos preparados para resistir a essas pressões.

Exemplo 1:

Tiago é um jovem piloto, tanto de idade quanto de experiência, que recebeu um convite de outro, mais experiente, que deseja reunir todos os amigos para realizar uma navegação. Ele aceita com prazer. Ele jamais efetuou uma navegação tão longa, e ele está acostumado a voar com boa visibilidade. Mas, em caso de condições precárias, ele vai seguir o outro avião. O dia chega e todos os passageiros estão lá, com os pilotos, e infelizmente há uma camada de stratus! Tiago não está tão inseguro, porque ele confia no piloto do outro avião. Mas, esse último, mesmo sendo mais experiente, está sob a pressão de uma atividade organizada por ele, e decide partir, apesar das condições de teto e visibilidade precárias. Tiago está sinceramente pouco à vontade, mas ele não ousa sugerir de rever a programação. Em voo, os dois aviões se perdem de vista, e Tiago termina com seus passageiros em um pasto, por pane seca.

Dois aviões, seis passageiros, um longo passeio programado, é quase uma expedição. O piloto mais vivido decide partir com as condições pouco razoáveis, sob a pressão de um evento que ele não queria deixar ‘miar’. Tiago não deixa por menos, e além de estar sob pressão com a presença dos seus passageiros, também estava sob a pressão do outro piloto. E ele não quis estragar o passeio.

Os shows aéreos não ficam muito atrás dessas situações, considerando as pessoas envolvidas e compromissos assumidos. Se fôssemos medir a acidentologia, os números mostrariam sem dúvida a pressão exterior como um dos maiores fatores contributivos de acidentes e incidentes.

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Exemplo 2 (Obs: depoimento de piloto francês):

Eu deveria transladar um planador para o encontro aéreo de Meribel; um planador que seria reformado num clube dessa cidade vizinha. Ao chegar, eu percebo que ele está sem freios. Sem freios em Meribel significa: se eu pouso um pouco mais curto, com esse tipo de planador e com o declive da pista, eu arrisco a voltar de ré assim que o planador parar; se eu faço um pouso mais longo, há um barranco no fim da pista. E eu nunca pousei lá de planador. Eu reflito….. e decido partir, dizendo para mim mesmo que o planador deverá parar no lugar certo, nem muito curto nem muito longo! O translado foi rebocado, o que me deixou mais cansado. Chegando em Meribel, o tráfego era logicamente bastante considerável, e minha primeira preocupação era de não ter ninguém no circuito de pouso, para evitar a necessidade de arremeter…. manobra muito ‘delicada’ em planador!! Um bom amigo no solo acostumado a eventos aéreos compreende minha situação e faz o necessário para me deixar o caminho livre. É manhã, não há ascendentes para subir novamente se eu não pousar. Eu aproveito essa oportunidade para comunicar a ele meu problema de freios, avisando que seria bom deixar pessoas perto da pista, principalmente na parte onde há o declive, para o caso do planador parar no lugar errado. Faço a perna base e entro na final. Toco a roda no solo, e, para freiar, inclino uma das asas até tocá-la no chão, inclino a outra da mesma forma, e assim sucessivamente, até parar no topo da pista…na beira do barranco. Não foi necessário que segurassem o planador. O freio foi consertado antes da apresentação em voo. É uma história entre tantas outras, que ocorrem nesses encontros.

Aí está um exemplo significativo sobre a forma como a pressão exterior influencia o comportamento dos pilotos. O piloto voluntariamente assumiu riscos para levar seu planador até o destino. Não sendo piloto de demonstração, não foi a pressão de uma exibição que ele enfrentou, mas aquela de um desafio pessoal. Ele poderia perfeitamente se recusar a voar nas condições em que estava, ainda mais porque ninguém especificamente insistiu para que ele fosse.

A gestão da pressão exterior é um ponto crucial para sua segurança na medida em que essa pressão pode te fazer ignorar numerosos riscos. Isso é ainda mais verdadeiro quando o piloto é imaturo, pouco experimentado, e, portanto, pouco consciente dos riscos.

Aqui vão alguns conselhos:

– O melhor meio de lidar com a pressão é agir como de costume: respeitar as diretrizes, os regulamentos e procedimentos.

– Você pode se antecipar a essas situações tomando algumas medidas de precaução: se você coloca um pouco mais combustível, em caso de imprevistos você evita uma pressão desnecessária 

– Você tem que estar disposto a não decolar no momento marcado, ou até mesmo a usar outro meio de transporte, caso a situação realmente não seja amigável.

– Previna seus passageiros que você poderá alterar o horário da decolagem, ou até mesmo cancelá-la. Com uma ou duas explicações, eles não farão questão de voar e te verão como um piloto sério e responsável.

– Não procure ‘chegar’ a todo custo. Muitos acidentes ligados à pressão exterior são mais frequentes quando os pilotos estão próximos do destino. Pense nisso quando chegar a hora de tomar a decisão adequada.

–  As pressões podem ser de naturezas diferentes, e cada uma delas deve ter sua própria resposta. Mas existe algo que deve ser aplicado a todos os casos, e é que, cedo ou tarde você irá se confrontar com situações de pressão externa, e que, nesses casos, você deverá resisitir a essa pressão. Você deve sempre ter isso em mente.

Bons voos.

_____

Jean Gabriel Charrier foi instrutor de avião, planador e acrobacia, piloto de linha aérea e inspetor de segurança de voo na França. Possui cerca de 13.000 horas de voo, e é titular de um diploma de Fatores Humanos em Aeronáutica, pela OACI. 

Publicado originalmente em mentalpilote.com. Tradução e reprodução autorizadas.

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