É possível revolucionar um campeonato de acrobacias e torná-lo atrativo para o público

As regras de pontuação dentro do box (Código Aresti) em nada mudaram. Fora do box queríamos fazer tudo diferente. E fizemos o primeiro campeonato do mundo com sistema eletrônico de notas por APP na linha de juízes, mesmo com Nick Buckenham, Presidente da FAI Aerobatics Commission (CIVA), duvidando que funcionaria. Também fizemos o primeiro campeonato do mundo com narração em tempo integral de todas as sequências e parciais da competição. Além de criar um formato completamente diferente de qualificação. O público entendeu e acompanhou.

Eu havia ligado para o Lucas Delcaro, que foi o diretor de prova, para repassar o Keynote das regras e validar os argumentos. Eu estava falando da Qualificação 1, o primeiro voo de cada categoria. Que é uma eliminatória. “Já elimina os pregos na primeira e só deixa os bons seguirem adiante” eu disse, dando uma risadinha de canto de boca.

Um tempo depois eu estava na competição, voando a Q1. Entrou um vento forte e um começo de chuva. Eu não tive a consciência situacional para escolher o lado certo do box para virar. Fiz um quarto de volta para o lado errado e fui para cima dos juízes no crossbox. Tomei zero. Eu fui um dos pregos.

No entanto, pela primeira vez, eu perdi um campeonato e continuei entusiasmado, porque eu fui um dos que concebeu a competição.

captura-de-tela-2016-10-07-as-02-53-17

O Primeiro Troféu Alberto Bertelli de Acrobacia Aérea

Foi no Aeroclube de Itápolis, interior de S. Paulo, Brasil, entre os dias 8, 9 e 10 de setembro de 2016, que aconteceu o primeiro Troféu Alberto Bertelli de Acrobacias Aéreas. O “veio”, como era conhecido Bertelli foi o maior ícone da acrobacia aérea no Brasil. Ele começou a voar nos anos 40, teve seu auge de shows aéreos nas décadas de 60 e 70 e faleceu de causas naturais no início dos anos 80. Sua memória é reverenciada de maneira unânime entre os aviadores brasileiros.

14102755_1055212864592673_4553135172740805644_n

Antes de explicar como foi concebida competição é necessário contar um pouco a história do Aeroclube e o que cada personagem esperava de todo o circo que lá foi montado. Em Itápolis temos um dos mais respeitados Aeroclubes do Brasil, foi fundado em 1941 e é o mais bem estruturado do País. O Aeroclube possui quase 20 aeronaves. Lá, também temos a sede da EJ Escola de Aeronáutica, a maior da América Latina, com mais de 50 aeronaves. Mas o que eles gostam mesmo é de festa. De receber gente, pilotos, aviões, e abrir os gramados do aeroclube para o pessoal da cidade curtir os voos.

Eu sou piloto de acrobacias de competição desde 2001, além disso, faço o planejamento de comunicação da EJ, que foi a principal patrocinadora do Troféu, e do Aeroclube, que organizou o evento. Assim foi possível fazer a ponte entre as necessidades dos pilotos e dos organizadores. Os pilotos querem mais um local para competir e evoluir na arte da acrobacia, e obviamente, eles também querem reduzir seus custos. Os que tem patrocínio querem justificar para as empresas a exposição das respectivas marcas. Os que não tem, desejam ter mais facilidade para buscar uma empresa patrocinadora para seu avião. A EJ e o Aeroclube, que foram os patrocinadores do evento, queriam gente que gosta de aviação visitando suas instalações e sabendo mais sobre suas respectivas escolas de pilotagem.

O Aeroclube já havia, antes, organizado com sucesso diversos shows aéreos. A parte do chão eles já tinham a expertise, e os próprios pilotos que participam dos shows aéreos por lá solicitavam mais eventos, encontros ou campeonatos. Josué Andrade, que é o presidente do Aeroclube e diretor da EJ, deu o sinal verde: organize um campeonato. Juntei um petit comitê de pilotos que competem constantemente e fui jogando as ideias, uma a uma, para que fôssemos analisando o que poderia dar certo ou não.

No Brasil temos o CBA, o Comitê Brasileiro de Acrobacias, que organiza o campeonato Brasileiro, com o pacote IAC, International Aerobatic Club, de sequências e categorias. E em Itápolis não desejávamos que fosse apenas um regional, como ocorre com os Chapters nos EUA. Para isso precisávamos diferenciá-lo. E o I Troféu Bertelli não foi um campeonato regional. Foi outro campeonato.

14311381_1066829993430960_8646647316820904748_o

Primeira meta: reduzir reclamações de arbitragem

Começamos a discutir o que incomodava nas competições. Nos campeonatos Brasileiros temos algo em torno de quinze pessoas na categoria Sportsman. E os resultados entre os primeiros ficam sempre muito próximos, com pouca diferença de porcentagem do primeiro até pelo menos o quinto colocado. E isso, invariavelmente, levanta diversas discussões sobre arbitragem porque praticamente ninguém zera uma manobra. Isso faz com que fique um bolo muito próximo. A mesma coisa acontece na categoria Primary (Básica).

Suspeitas, fundadas ou não, sempre tiram o brilhantismo da competição e geram diversas fofocas de bastidores. E isso tem um efeito negativo: acaba afastando das competições alguns pilotos que poderiam participar e evoluir em seus voos.

Nossa primeira meta era aumentar a distância de pontuação entre os primeiros colocados, e portanto, fomos um dos poucos no mundo, que sabemos, a termos um campeonato com sequências próprias. E desenhamos apenas três categorias, a primeira a Tradicional, que é algo entre a Primary e Sportsman da IAC. Criamos um nome novo porque achamos muito ruim a pessoa levar um troféu para casa e ser premiado por ser “Básico”, ou “Primário”. Além disso, a achamos a primary IAC muito curta, onde próprio piloto quase nem chega a se divertir com um voo que termina tão rapidamente.

A segunda categoria foi a Super Sportsman, que é praticamente uma intermediária sem snap roll. O princípio foi o seguinte: mínimo de aeronave a conseguir realizar sem perda de competitividade, deveria ser o Decathlon de 150hp, o Cap-10 e o RV’s, que são aviões da nossa realidade.

A dificuldade foi aumentada perante a sportsman incluindo tempos em manobras, como tunô de 4 tempos e incluindo uma parte das manobras da categoria IAC Intermediária, como o looping chinês. Manobras que não demandam motores de 200hp. As distâncias de pontuação entre os primeiros colocados aumentou. Fazendo com que os próprios pilotos tivessem consciência de seus próprios erros e menos reclamações.

A terceira categoria foi a Elite, que foi uma avançada que pudesse ser voada com com um Christen Eagle, no limite, sem ficar atrás demasiadamente na pontuação contra um Sukhoi ou Extra. Com o mesmo princípio, o de aumento da dificuldade de execução sem a necessidade de ter 300hp de potência.

Cada categoria teve três sequências definidas antes. Não teve free nem unknown, que sempre gera discussões por acharem que prejudica ou ajuda algum determinado tipo de aeronave. E mesmo na tradicional, tivemos três sequencias. O fato de elas serem diferentes deram uma certa emoção ao esporte, que só os pilotos da intermediate pra frente tem, mesmo as manobras praticamente sendo as mesmas, mas em lados diferentes do box. Além de forçar mais zeros sem trazer riscos ao voo.

14311422_1066834513430508_7554898006569752933_o

Sistema de qualificação inspirado na Formula 1

Todos os competidores começaram, em suas respectivas categorias, voando a Qualificação 1. A partir dela, qualifica-se para a Q2, que é uma semifinal. Os últimos da Q1 foram para uma repescagem, para que nenhum piloto fizesse menos que dois voos com notas. No caso do Troféu Alberto Bertelli, tínhamos 10 pilotos na Sportsman e a Q1 desqualificou dois competidores. Para repescagem foram colocados os três com notas inferiores para que apenas um seguisse na competição. Basicamente foram apenas os competidores que zeraram manobras na Q1, conscientes de seus erros. Os três competidores repetiram a seqüência da Q1. Foi bem aceita a ideia de que um competidor pode cometer um erro, zerar uma manobra e ainda poder ser o campeão, desde que esteja na Q1.

Para a Q2, foram apenas 8 competidores. E quando o competidor passa de fase, seus pontos chegaram zerados. A Q2 é uma nova etapa. E qualquer um podria ganhar novamente, não é uma somatória. Além disso, todo piloto sempre acha que sempre o voo do dia seguinte será melhor, e isso deu um dinamismo diferente.
Não ser uma somatória trouxe diversas vantagens. Os pilotos que não chegam extremamente bem treinados, mas que voam bem, podem evoluir durante a competição, o que deixou a competição mais democrática. Isso aproximou os que são proprietários de aviões, e que treinam com mais freqüência, dos que alugam aviões apenas para os campeonatos e chegam apenas no dia da competição. Além disso, não há briga por horário de box no dia anterior e acusações de favorecimento por parte da organização para determinados competidores, coisa que sempre acontece.

A Qualificação 3 é a final. Foram para ela 4 competidores na Tradicional e 4 competidores na Super Sportsman. Todos zerados novamente. Na elite, desde o primeiro dia, tivemos apenas dois competidores. E realmente neste caso houve uma falha de planejamento nosso, pois não houve eliminação, não soubemos lidar bem com isso. Precisamos pensar o que fazer em casos semelhantes.

Esse sistema de qualificação deu resultados sobre as reclamações com a arbitragem. Tivemos um piloto na categoria Tradicional que zerou uma manobra na Q1, mas mesmo assim prosseguiu para a Q2. No dia ele ensaiou uma reclamação de arbitragem por causa de seu parafuso. Foi zero ou não foi? Não importa. Foi qualificado para a Q2, como um dos últimos, mas foi. Se fosse uma somatória ele jamais poderia se reabilitar para ser o campeão da categoria e ficaria reclamando dos árbitros durante três dias. O assunto morreu em menos de 24 horas. Ele acabou indo para a rodada final.

E esse método também facilitou para os juízes. Em uma final, com poucos competidores, todos voam sequencialmente, e são só os melhores. Quatro vôos acontecem em menos de uma hora. Os juízes avaliam os melhores sequencialmente, trazendo um resultado mais justo.

Em campeonatos com somatórias e com dez ou quinze pilotos em uma determinada categoria, injustiças podem acontecer. Já ocorreu comigo situações em que estou voando as duas da tarde, com vento forte, turbulência, e meus concorrentes diretos voaram próximos ao por do sol, sem vento e sem turbulência, com uma atmosfera completamente favorável.

Tudo isso aumentou a competitividade. O assunto, mesmo entre os competidores, depois do segundo dia era quem seriam os campeões. Reduziu-se a previsibilidade de uma somatória de um piloto que vai com 1% ou 2% de vantagem. Que é de difícil recuperação em competições acirradas.

captura-de-tela-2016-10-07-as-03-11-03

O primeiro campeonato do mundo com APP eletrônico de notas

Oswaldo Guerra é piloto agrícola. Antes de ter essa profissão, formou-se engenheiro. Oswaldo já criou o aplicativo sensação na aviação agrícola, o Agflier, que tem sido muito útil para pilotos agrícolas e tem se popularizado pela América Latina toda e começando na Austrália e EUA. Ele, nos campeonatos Brasileiros, foi o responsável por colocar em operação o software da FAI/CIVA para processar as notas. Nós pedimos que ele fosse responsável pelo scoring do I Troféu Alberto Bertelli. Oswaldo aceitou.

Mas Oswaldo queria inovar. Ele se incomodava com o excesso de papéis com anotações. Ele fez um aplicativo para Ipad. Cada juiz tinha o seu. Eles davam as notas e elas caiam diretamente para o centro de resultados, onde eram rapidamente processadas e já publicadas na web. Assim todos com smartfones tinham acesso na hora, a TV do Bar do Aeroclube já projetava essas notas. Não aguardar a noite, no fim do campeonato, para ver as colocações gerou outro resultado pra lá de interessante: as pessoas acompanhavam a competição. E não apenas diversos voos isolados no box. Tudo se integrou.

14225404_1065347566912536_8446768138575911415_n

Outro recurso interessante dentro do software no IPAD foi a gravação das vozes dos juízes dando notas, o que serviu como as anotações das manobras, com muito mais detalhes, e que ajudou bastante os competidores, principalmente os mais novatos, a entenderem mais e estudarem seus voos. Alguns competidores juntaram esses áudios de comentários com vídeos de Gopro e publicaram no youtube, para seus estudos.

Mas a genialidade do Oswaldo teve um impulso. Ele trocou informações com o Presidente da FAI Aerobatics Commission (CIVA), Nick Buckenham, que é o autor do software de processamento de notas e comentou de sua ideia, de ter um aplicativo. Nick não acreditou que funcionaria. Oswaldo tomou como um desafio pessoal. Por sorte nossa.

A velocidade da publicação dos resultados trouxe vantagens, porque sempre foi uma coisa absolutamente humana, os amigos do competidor elogiarem seu voo logo após o pouso. O piloto ficava com todos aqueles elogios na cabeça por horas, para saber, apenas a noite, o resultado de seu voo e sua classificação. Em caso de pontuação baixa, depois de tantos elogios, só podia ser uma conspiração de juízes contra ele, ou da direção de prova. No I Troféu Alberto Bertelli, não havia tempo para essas abordagens, quando o piloto saia do box, seu resultado já estava publicado, sua parcial em comparação aos outros competidores também. Os pilotos desciam do avião já com seus celulares na mão, acompanhando a tabela e vendo suas notas. Conscientes da qualidade de seu voo. Mas isso também serviu para aproximar o público.

14257452_1069950663118893_3864137836910475734_o

Primeiro campeonato do mundo com narrador em tempo integral, tanto das manobras como de resultados parciais

Vadico, que é famoso no país por narrar todos os eventos de aviação e aeromodelismo, sempre é escalado para dar o clima de festa em todas as competições. Ele também, com poucos subsídios, já era conhecido por traduzir para o público leigo as manobras executadas em shows aéreos, sempre tentando adivinhar o que o piloto estava fazendo.

Sempre me questionei do porque ele não narrava as sequencias, principalmente na categoria básica e sportsman, já que são sempre iguais. Havia um mito de que não adiantava em nada tentar narrar, pois as regras eram ‘difíceis’ e o público não entenderia os ângulos e pontuações.

Eu assisti pela TV, durante as Olimpíadas uma prova de saltos ornamentais na piscina. Tinha um narrador, ele ia explicando mais ou menos como era a competição. Durante a prova consegui entender, ou achei que conseguiria entender, não importa. Na acrobacia, eu garanto, depois do terceiro immelmann, até uma criança sabe como é. Além disso, as pessoas gostam de competição, de saber resultados, e gostam de entender mais, principalmente os fãs de aviação. Com os resultados ao vivo, Vadico ia transmitindo as parciais de classificação, se o piloto suplantou o competidor anterior ou não, ou se está bem contado para vencer. E só das pessoas saberem que o narrador sabe a próxima manobra, já foi interessante.

Ele lia as sequencias, já que tivemos a Q1, Q2 e Final de cada categoria definidas previamente. “Puxa”, “agora ele empurra”, “vai para a vertical”, etc. E para o público entender, ia fazendo seus comentários como os juízes fazem. Se passou na proa, se pulou um tempo de manobra, ou se ficou longe do box ou fez alguma manobra em um posicionamento ruim. Nós não nos importamos com possíveis reclamações dos competidores referentes aos comentários do narrador sobre suas manobras, é parte do show, como todos os narradores em todos os tipos de esportes.

captura-de-tela-2016-10-07-as-03-11-48

Primeiro campeonato no Brasil com todos os juízes exclusivos

Além do Fernando Paes de Barros, que foi o patrono do evento, os outros juízes eram provenientes dos campeonatos de IMAC do Aeromodelismo. Juízes experientes de muitos anos. A lenda é que eles teriam dificuldade, que não saberiam as regras, mesmo depois de treinados. Na prática, a única diferença foi que eles simplesmente acharam que o voo é “em câmera lenta”. E suas notas foram consistentes. Praticamente tivemos apenas uma reclamação de arbitragem. “E ele tinha razão”, disse para mim um dos juízes. E foi um erro de interpretação de sequencia.

Nossos erros

Tradicionalmente, no Brasil, os campeonatos terminam aos sábados pela manhã, para deixarmos as apresentações de show aéreo para a tarde, quando temos mais público, com aviões com fumaça. Fizemos isso desta vez também, as competições terminaram por volta de meio dia do sábado. Acreditamos, agora, que podemos deixar as competições até o fim do dia, que sempre tem mais público acompanhando. Também precisamos aumentar o número de juízes – neste campeonato tínhamos apenas três, mas sabemos que o ideal são cinco.

14231125_1067947103319249_1604140509531525901_o

Balanço

Aproximamos o público da acrobacia áerea. Os competidores foram premiados em frente das pessoas, logo após o término da competição, talvez despertando mais paixões pela aviação e criando fãs. É uma conta onde todos ganham, os patrocinadores, o público e a acrobacia aérea. Temos certeza que podemos ter mais patrocínios nos próximos anos e podemos reduzir os custos do esporte. Acertamos no formato. Mas eu saí do box.

Por Filipe Rafaeli

O autor é piloto de acrobacias aéreas.

14207817_1066478456799447_1349148404607521158_o

14324503_1069955339785092_4113676510684518854_o

 14231314_1066484316798861_4806059706351801366_o 14241643_1068916659888960_6987348206665682875_o  14257460_1066833443430615_5077041726823734111_o 14257643_1137895092951441_7897277405754001177_o 14258108_1069956126451680_7881992365573420224_o 14258180_1066824380098188_765402920117131395_o 14289907_1069952716452021_458899756950080710_o 14290051_1067944136652879_3448346920790208635_o 14311263_1069947443119215_5676647929086336919_o 14311354_1067945546652738_5749522519858358580_o 14324190_1139648209442796_4083410194554389121_o 14361217_1069955496451743_947703592025023589_o captura-de-tela-2016-10-07-as-02-53-40 captura-de-tela-2016-10-07-as-02-54-15

Anúncios

Uma resposta para “É possível revolucionar um campeonato de acrobacias e torná-lo atrativo para o público

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s