Querem monetizar a palavra ‘aviador’

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Hoje, 23 de outubro, é dia de parabenizar os amigos que voam e que são apaixonados por aviação – os aviadores. Mas desculpe estragar a festa: pode ser que em breve essa data mude de conotação.

                Meses atrás, conversava eu com um aluno de uma renomada faculdade de ciências aeronáuticas, e que estava agora fazendo o curso de Piloto Comercial. Entre outros temas gerais de aviação, perguntei a ele como era o curso: que tipo de matéria estudavam, se as provas eram difíceis, etc. A resposta que tive foi a do típico enfastiamento pelo qual qualquer universitário brasileiro passa quando vai chegando ao final da faculdade: grande parte das matérias era enfadonha, muitas delas resumidas, outras delas inúteis e apenas para ‘encher linguiça’, o inglês era básico, e boa parte dos alunos preferia matar aula nos bares, preocupando-se com os estudos apenas nas vésperas das provas. Enfim, um curso superior como outro qualquer. Perguntei se havia alguma matéria sobre ‘história da aviação’ (na faculdade de Direito eles ensinam a História do Direito, na de arquitetura tem a História da Arquitetura, etc). Mas para minha desolação, fiquei sabendo que não há ‘história da aviação’ na grade de matérias. Ou seja, todo o desenvolvimento da aviação, histórias de ases e aviadores, tudo isso é desprezado. Nada de moralmente errado, mas também nada empolgante.

                Hoje,  dia do Aviador, recordo-me de que, quando comecei a fazer o PP, fui contar para minha avó, e ela perguntou: “Então você está fazendo curso de aviador?” Na juventude dela, quem pilotava aviões era sempre um aviador, isso é fato. Mas quando ela disse isso, soou algo ainda muito ‘alto’ para mim. Na minha mente, essa expressão era mais adequada para figuras como o Barão Vermelho, Bob Hoover, Douglas Bader, Eric Hartmann, Pierre Clostermann, Alberto Bertelli, Cel Braga… enfim. Eu respondi à minha avó: “Não, não é curso de aviador, é só de piloto mesmo…para ser aviador vai demorar muito ainda, e nem sei se chego lá”.

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                Pela quantidade de textos que surgem no dia 23 de outubro, é possível ver o quão sagrada é a expressão ‘aviador’. É uma palavra que, pelo seu histórico, adquiriu um status quase igual do ‘cavaleiro’, para o qual não bastava dominar um cavalo ou ser um exímio guerreiro. Na época da cavalaria não havia ‘curso de cavaleiro’. Era um conjunto de qualidades técnicas e morais, somadas a experiências de vida, que formavam um cavaleiro. E a aviação quando surgiu tinha algo de cavalaria. O ‘Barão Vermelho’ era uma espécie de cavaleiro – e foi para homenagear sua memória que seus inimigos ingleses inventaram o ‘missing man formation’ (um rito digno de cavalaria). Ter sido piloto de caça na Luftwaffe ou na Royal Air Force durante a Segunda Guerra é quase como ter sido da Távola Redonda…

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                 Aviadores também foram aqueles que cruzavam o Atlântico navegando com referência visual nas estrelas, ou então os que instituíram o C.A.N. – Correio Aéreo Nacional – pelos rincões do Brasil. Esses podiam ser comparados aos navegadores de caravelas ou aos bandeirantes. E iguais a esses, há muitos outros, que igualmente foram e ainda continuam sendo aviadores, muitos deles vivendo entre nós.

                Enfim, dentro de todo esse contexto, eis que, semanas atrás, me deparo com a notícia de que um certo deputado mineiro (Caio Nárcio, clique aqui para ter acesso ao perfil dele na Câmara), provavelmente instigado pelos idealizadores do www.projetoaviador.org, resolveu apresentar – sem qualquer consulta entre os pilotos – um projeto de lei pelo qual, num futuro próximo, o título de ‘aviador’ seja ostentando somente por quem tenha o canudo de uma faculdade aeronáutica. O texto diz assim:

Art. 2º – Para os efeitos desta Lei, ficam estabelecidos os seguintes conceitos e definições:

I – Aviador: Profissional que se ocupa de aviação, titular de licença de piloto de aeronaves em conformidade com o Art.3º desta Lei.

II – Piloto: toda pessoa titular de licença, emitida pela autoridade de aviação competente, para operar e praticar a pilotagem de aeronaves ou veiculo aéreo, independente do caráter profissional, desportivo ou privado da atividade aérea, respeitadas as normas de operação, de navegação, de controle do espaço aéreo, leis e decretos.

Art. 3º – O exercício no País da profissão de Aviador, observadas as condições de capacidade e demais exigências legais, é assegurado: I – Aos titulares de licença de Piloto Comercial ou de Linha Aérea, expedidas por autoridade aeronáutica competente antes da entrada em vigor desta Lei.

II – Aos titulares de diploma de graduação em Ciências Aeronáuticas, expedido por escolas de ensino superior, oficiais, reconhecidas pelo órgão competente, e que o licencie à pilotagem profissional de aeronaves.

No artigo quarto ele dá o seu presente aos aviadores:

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Art. 4º São reservadas exclusivamente aos profissionais em conformidade com o Art.3º desta Lei, a denominação de aviador.

Além disso, esse projeto de lei pretende criar um conselho para ‘cuidar’ dos aviadores (igual à OAB, CREA, CRM, etc):

Art. 19º Ficam criados o Conselho Federal de Aviação – CONFAV e os Conselhos Regionais de Aviação – CRAv, como autarquias dotadas de personalidade jurídica de direito público, com autonomia administrativa e financeira e estrutura federativa, cujas atividades serão custeadas exclusivamente pelas próprias rendas. §1º O Conselho Federal de Aviação e os Conselhos Regionais de Aviação têm como função orientar, disciplinar e fiscalizar o exercício da profissão de aviador. §2º O Conselho Federal de Aviação é o órgão máximo deliberador do exercício profissional na pratica da aviação. §3º O Conselho Federal de Aviação terá sede e foro em Brasília, Distrito Federal.

                 Ora, além de piloto e fotógrafo, sou formado em Direito e envolvido em atividades do Judiciário, e nessa condição posso dizer que 90% desses Conselhos Profissionais não são presididos pelos melhores da categoria, e sim pelos mais politiqueiros. Ademais, salvo raras exceções, a maioria dos Conselhos só atua para ajuizar execuções fiscais contra quem não paga a ‘sagrada’ anuidade (que nunca é barata). Não consigo ver vantagem em criar uma entidade dessas para pilotos (ops, para ‘aviadores’).

                Talvez quem idealizou esse projeto realmente tenha sido um bom aluno numa faculdade aeronáutica, e talvez acredite que todos estudantes vão às aulas ansiosos pela aviação em si… mas não saiba que a realidade nacional é que muitos querem apenas se livrar daquilo tudo o quanto antes. E fora que os principais ofícios dessa carreira – sentar num avião, aprender a voar, dominar uma máquina, e adquirir a excelência do airmanship – continuam impossíveis de serem ensinados nos assentos de uma faculdade.

                  Em grande parte esse projeto de lei parece apenas seguir a tradição recente da nossa aviação tupiniquim, onde quase todos, desde aeroclubes, oficinas, até o mais alto escalão da agência reguladora, são especialistas em ‘criar dificuldades para vender facilidades’.

                  Mas imaginemos que realmente seja necessário aprovar essa lei: sei que há estudos sobre a real necessidade melhor formar pilotos civis, e não quero desprezá-los aqui. Mesmo assim, devo manifestar a indignação com o despropósito, com a falta de tato, com a bola fora que é pretender que, num futuro próximo, a palavra ‘aviador’ seja usada meramente para qualificar uma licenciatura, uma categoria profissional, e seja concedido por lei àqueles que tenham se sentado num banco de faculdade e feito as habilitações sem um pingo de amor à aviação.

                   Alguém dirá que na esfera militar o título de aviador é acrescido à patente de quem se formou piloto, e ninguém acha isso um exagero. Mas a carreira militar predispõe naturalmente a uma série de abnegações e sacrifícios que fazem o título ser merecido, mesmo para pilotos ainda pouco ‘voados’, o que não é o caso da maioria dos pilotos civis.

                  Enfim, o que realmente me revoltou é que o título de ‘Aviador’ – conquistado historicamente por quem ‘comeu muito sal’ na vida aeronáutica – seja transformado em moeda de troca. Se compararmos com o mundo da pintura, por exemplo, seria o mesmo que pretender dizer que ‘somente o profissional formado em uma universidade de Artes poderá ser chamado de artista‘.

               Certamente quem fez o rascunho desse projeto de lei não considerou todo o sentido que a palavra ‘Aviador’ adquiriu com o tempo, não só a nível nacional como mundial. Imaginem o absurdo que seria qualificar um veterano que esteja apenas com o ‘PP’ válido como um simples ‘piloto’ (ou será que existirá um ‘aviador aposentado’?), ao mesmo tempo que se conceda sumariamente o título de ‘aviador’ a alguém que acabou de receber um canudo e recém cumpriu as horas mínimas…

                   Que encontrem outro título para essa licenciatura, porque é impossível fazer ‘curso de aviador’ lendo livros teóricos dentro de uma sala com ar condicionado.

por Plinio Lins

 

Ray-Ban deverá repensar o título da sua série de óculos 'Aviator". E os fabricantes de jaquetas idem.

Se depender dos burocratas tupiniquins, a Ray-Ban deverá repensar o título da sua série de óculos ‘Aviator”. E os fabricantes de jaquetas idem.

 

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14 Respostas para “Querem monetizar a palavra ‘aviador’

  1. Querem fazer o mesmo com os fotógrafos, e muitos iludidos estão ansiando pela aprovação. Na aviação com certeza haverão muitos pilotos de ego inflado, ansiando por serem reconhecidos como aviadores, nem que seja por força de lei. Mas aqui é Brasil, lembre-se que sua profissão mesmo, de advogado, e também a de médico carregam um título de doutor concedido por um monarca há quase 200 anos, sem a exigência do correspondente curso de doutorado. Brasileiro adora um título! Com certeza criarão um distintivo para piloto e outro, maior e mais vistoso para os aviadores. Até imagino o futuro conselho regulamentando o uso do óculos de aviador…
    Excelente texto, parabéns!

    • A natureza dos trabalhos e as consequências tornam as matérias diferentes. Não é o mesmo que querem fazer com fotografos. Trata-se de um trabalho que se realizado errado pode causar lesões às pessoas, perda de bens e até mesmo a perda de vidas!
      A aviação é algo que precisa ser mais valorizado! E é possível atingir nível mais elevado de excelência!

      • Ah tá, vai ser uma merda de canudo universitário que vai deixar a aviação mais segura? Vá ler uns boletins da FAA para saber quais são as diretrizes para melhorar a segurança da aviação. NENHUMA delas diz respeito a curso superior, faculdade, títulos e o caralho! Conta outra cara

  2. O menino que idealizou esse projeto quer ser Aviador sem ser. Basta perguntar quantas horas de voo ele tem (quase nada) e onde ele trabalha (em lugar nenhum).
    Aparece cada maluco…

  3. Esse projeto nasceu da mente de um rapazinho de BH que se auto intitula ‘Comandante’ Gustavo Carolino, mas que nem sequer trabalha no meio aeronáutico. Esse cara não tem absolutamente NADA de aviador, e inclusive ele já tentou várias vezes ferrar outros que voam. Não sei o que ele fez para que um deputado conseguisse abraçar uma causa tão estúpida. A aviação inteira deverá lutar contra esse projeto imbecil.

  4. Por mais acadêmica que queiram transformar a aviação, ela continuará muito mais empírica ,como sempre foi…a experiência adquirida, se enraíza e se eterniza na mente do aviador, enquanto um acadêmico, pode ler e guardar apenas o que lhe interessa….
    “NA AVIAÇÃO, NÃO EXISTEM ATALHOS PARA A EXPERIÊNCIA” !!!!!!

  5. Prezados,

    A proposta de Lei do Aviador extremamente benefica para o desenvolvimento seguro da aviação. O Projeto busca oficializar a profissão de Aviador. Isto é, trazer a tona a profissão da Aviação, em que os aviadores sejam protagonistas da construção, manutenção e gestão da aviação, através de um órgão público próprio.

    Assim como a profissão da medicina é medico; e a profissão da engenharia é a de engenheiro; e a profissão da advocacia é advogado…. a profissão da aviação é aviador.

    Entretanto, a profissão da aviação ainda não foi oficializada, como podem perceber. Precisamos de pessoas que professem a aviação; e combata a entrada de mercenários no setor.

    Não é ”’monetizar a palavra aviador”. É trazer a tona o protagonista da aviação.

    Aviador, no delírio de alguns, é tido como sinonimo de “bom piloto”; o que nunca foi significado desse termo.

    Muitos querem apenas “mamar” na aviação, mas poucos querem doar-se a ela para ajudá-la a se desenvolver.

    Fico à disposição para explicar de fato, sem sensacionalismo barato, essa novidade. O assunto é complexo e é necessário termos prudência e dedicação para dele tratarmos, para não ser leviano.

  6. “Pela quantidade de textos que surgem no dia 23 de outubro, é possível ver o quão sagrada é a expressão ‘aviador’. É uma palavra que, pelo seu histórico, adquiriu um status quase igual do ‘cavaleiro’, para o qual não bastava dominar um cavalo ou ser um exímio guerreiro. Na época da cavalaria não havia ‘curso de cavaleiro’. Era um conjunto de qualidades técnicas e morais, somadas a experiências de vida, que formavam um cavaleiro. E a aviação quando surgiu tinha algo de cavalaria. O ‘Barão Vermelho’ era uma espécie de cavaleiro – e foi para homenagear sua memória que seus inimigos ingleses inventaram o ‘missing man formation’ (um rito digno de cavalaria). Ter sido piloto de caça na Luftwaffe ou na Royal Air Force durante a Segunda Guerra é quase como ter sido da Távola Redonda…”

    Prezado autor do texto: O nome correto para o que queria dizer é “Ás” e não aviador (a).

    Att.,

    Gustavo

    • Ás é quem derruba um número ‘x’ de inimigos. Existem ases até de tanques de guerra! Em inglês, isso é ‘ace’. Um piloto do correio aéreo nacional, ou piloto de tranporte pode ser um aviador, mas nunca um ás. Para de falar bobagem cara, todo mundo entendeu o que ele quis dizer, só vc que não. O dia que esse ‘Projeto Aviador’ for desengavetado, a aviação inteira vai berrar contra. Essa merda não passa nunca, só serviu para queimar seu filme na aviação

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