Acrobacia de competição: tudo que você queria saber sobre a categoria Intermediária mas tinha medo de perguntar

Por Filipe Rafaeli –

Eu havia acabado de pegar mais um saboroso chope artesanal numa kombi transformada num boteco, com diversos bicos do malte em sua lateral. Era o fim do primeiro dia do campeonato 2017 de acrobacias aéreas, na AFA, em Pirassununga. Voltei e me sentei à mesa para continuar falando todos os desaforos possíveis sobre a competição, adversários, juízes, organização do campeonato, e de quem mais desse na telha.

Na mesa, diversos competidores da categoria Intermediária. Com um olhar de reprovação e movimentos de negativo com a cabeça, falavam: “Que isso, meu?”, “Para com isso”, “Pega leve, de boa”. “Está tudo bem”. Continuei com os insultos e o nível da conversa deles evoluiu. Já falavam da beleza da acrobacia, da aviação e sobre necessidade de harmonia entre aviadores. Pareciam frases tiradas de memes, desses que circulam nos facebooks das nossas tias, com textos da Clarice Linspector ou poesias de Caio Fernando de Abreu.

De tempos em tempos a gente descobre coisas que nos incomodam mas que você nunca sacou muito bem o porquê, mas que incomodam. Ano passado descobri que uma dessas coisas era o “parabéns para você” em ritmo de samba. Não dá para lidar com aquilo, é uma agressão. Este ano descobri mais uma: os competidores da categoria Intermediária.

Temos cinco categorias em campeonatos, a Intermediária, como o nome diz, é a do meio. Tudo começa com a Básica, que é a categoria de entrada, depois tem a categoria Esporte, segue para a intermediária, depois Avançada e, finalmente, a Ilimitada. Na teoria, a complexibilidade das manobras que as diferencia, e na teoria também, é uma evolução.

Na Básica, por exemplo, são 4 ou 5 manobras, feitas na sequência, onde tem um parafuso, um looping, um tunô, entre outras manobras básicas. Na esporte tem essas e diversas outras, são umas 10 ou 12. Nela já entra o tunô de dois tempos, o hammerhead, o humpty bump, o fish hook, entre diversas outras do catálogo. Na intermediária entra o snap roll, o tunô de quatro tempos, e mais um uma ou outra bobagem. A coisa evolui até chegar na ilimitada, onde explora-se, de verdade, o G negativo, torques de motores potentes, e outras coisas mais.

Mas na prática, a teoria é outra, como já dizia a Rita Lee. A verdade é que as categorias são separadas por classe social. O classe média baixa participa da categoria básica, o classe média, na categoria esporte, classe média alta ou novo rico, na intermediária, ricos na avançada e, finalmente, na a ilimitada com gente boa da bufunfa com Sukhoi ou Extra.

Explico: com umas 5 horas de treinamento, em um Decathlon, que vai até a Esporte, mesmo sem estar solo, indo com um safety pilot, você pode participar de uma categoria Básica e até ir bem colocado. Com umas 10 horas de voo, sendo bem competitivo, você pode voar na categoria Esporte e ir bem. E se você fez o curso de acrobacias há uns 10 anos atrás, com umas duas ou três horas de refreshment, você pode ser competitivo novamente, basta um pouco talento. Claro que você vai encontrar concorrentes que treinaram 20, 30 horas, mas que dá pé, dá. Avião para alugar e prosseguir para intermediária e além? Você não acha fácil.

Mas até aí, tudo bem, é natural, não é isso que incomoda.

Como resultado dessa estrutura, nós sempre temos uns dez ou doze na Básica, mais a mesma quantia de gente na Esporte, e nas outras, quase ninguém. Este ano, por exemplo, na intermediária, tivermos um recorde, com cinco competidores. A avançada não houve falta de pilotos, e na ilimitada tivemos apenas um participante, o que deixou de ser uma competição e passou a ser uma apresentação, simplesmente.

Mas até aí, tudo bem, acontece, também não incomoda.

O começo do problema é que eles acham, quando vão para a Intermediária, que evoluíram tecnicamente na acrobacia, e na verdade, a competição é fraca. Isso é comprovado por fatos. Gente que tomou pau por anos na esporte, quando chegou na intermediária, virou campeão. Gente que brigava para não ficar na lanterninha da categoria Esporte, chegou lá e começou a levar troféu para casa. Além de diversos casos de pessoas que competiram na Intermediária, foram campeões, e quando, por algum motivo, voltaram para a esporte, chegaram levando de goleada. Isso não é um caso ou outro, isolado, não.

Mas até aí, de eles acharem que evoluíram, não incomoda. A gente dá umas risadas, achamos divertido.

Mas o que incomoda mesmo é a crença deles, quando chegam na Intermediária, que além da evolução técnica, tiveram evolução espiritual. A crença de que a categoria abre um portal para a verdade universal. Isso ocorre porque lá eles não passam por pequenos dissabores da vida que acontecem em competições. Já viu alguém dar carrinho na pelada dos casados contra os solteiros, no futebol da confraternização de fim de ano? Então.

Enquanto na categoria Esporte e Básica você vê gente puta da vida, olhando feio para juízes, enfiando o dedo na cara deles, porque o competidor tem certeza que no parafuso passou 10 graus e o juiz considerou 15, criando uma maior penalização, na intermediária, a vida é bem mais bela, eles veem unicórnios saltitantes e arco íris lindos.

Enquanto na esporte, o competidor sabe que com 15 graus a mais ou a menos no parafuso, ele deve fechar o caixão e seguir com o enterro, porque no máximo que ele consegue, se tirar uns dois coelhos da cartola, é tentar um troféu de terceiro lugar, na intermediária, tivemos o caso de gente que deveria fazer uma volta e meia de parafuso, fez duas voltas e meia e ainda levou o troféu de segundo lugar. Agora imagine o show de horrores dos que ficaram em terceiro, quarto e quinto. Lá é bonito, ninguém reclama de juiz, afinal, não faz a mínima diferença se é 360 ou 370 graus o erro, porque se você passar dos quarenta graus, já é nota zero.

Em anos anteriores tivemos coisas ainda piores, como competidor zerar um parafuso e ainda ser o campeão. É algo mais ou menos como tomar quatro gols da Alemanha nos primeiros 45 minutos de um jogo de Copa do Mundo, voltar para os segundo tempo, virar o jogo e ganhar a partida. Isso só acontece em pelada. Na prática, numa copa, você volta para o segundo tempo, toma mais três e termina em 7 a 1.  

E o parafuso é absolutamente o mesmo parafuso da Básica e Esporte, onde zerando, você já deve abrir uma cerveja, esquecer do campeonato, e começar a pensar no próximo ano, porque já era. Game over.

Além da evolução espiritual, eles acreditam, inclusive, numa evolução de local de nascimento. Na intermediária eles deixam de ser latino americanos. Enquanto na esporte a gente tá chamando adversários de chifrudos e tomando penalizações, competindo como um Nelson Piquet – quem não se lembra dele, na Williams, em 82, fechado por Eliseo Salazar, descer do carro furioso e resolver tirar satisfação com o chileno na porrada, transformando Hockenheim em um palco de uma luta de boxe? – na Intermediária, quando chegam lá, eles viram ingleses, comportando-se impecavelmente como os lords que tomam chá da tarde com a rainha, no Palácio de Buckingham.

Na Esporte continuamos sendo legítimos latino americanos, terra do Maradona fazendo gol com “la mano de Dios” e levando uma copa pra casa. Na Esporte somos latinos da Copa Libertadores com o “espírito da libertadores” e tudo. Como esquecer quando o São Caetano eliminou o América do México, em 2004, no estádio Azteca? A torcida se juntou, tomou impulso e jogou um carrinho de mão, desses de construção, a partir da arquibancada, na polícia, que tentava segurar um quebra-quebra no estádio.

Essa coisas não ocorrem na intermediária, lá o competidor deseja boa sorte ao adversário com um abraço apertado, além de ajuda-lo a vestir o paraquedas, que precisa estar bem ajustadinho, ali na virilha.

Enquanto na Esporte a gente é o Senna em 90, enfiando o carro pra cima do Prost a 250 km/h na primeira curva de Suzuka, porque era só necessário que o Prost não finalizasse a corrida para ele ser campeão, na intermediária um competidor ajuda o outro nos treinamentos.

Enquanto os verdadeiros campeonatos brasileiros de acrobacia acontecem na Esporte e Básica, a Intermediária é o jogo de poker nutella, com all in de dinheiro do banco imobiliário. Inclusive é meio fácil você saber quando o cara pretende subir de categoria e fugir da categoria esporte. Um dos sinais que ele dá, um pouco antes, é começar a encaminhar vídeos, nos grupos de whatsapp, do Leandro Karnal explicando o que é felicidade. Daqueles que ele narra histórias de quando era criança e visitava os parentes no interior.

Antes de finalizar, preciso deixar claro que eu não tenho nada contra os competidores da categoria, tenho até amigos que são, mas eu tenho um certo receio de chegar na casa de algum deles, vê-lo abrir a porta vestindo uma bata indiana, encontrar incensos acesos pela casa, descobrir que o churrasco será vegano, acompanhado de suco detox, e quando chegar na churrasqueira, ver mais competidores da intermediária, todos juntos, com as mãos para o alto, cantando e coreografando “Age of Aquarius”, do Fifth Dimension. 

 

Filipe Rafaeli foi campeão diversas vezes na categoria Esporte, é fã do Nelson Piquet, e acha que o gol mais bonito das copas foi feito pelo Maradona, quando driblou a Inglaterra inteira. Já sofreu penalizações por atitudes anti desportivas.
Contato: filiperafaeli@gmail.com

As ideias aqui defendidas são de responsabilidade do autor, e não representam necessariamente a opinião do blog Aeromagia.

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11 Respostas para “Acrobacia de competição: tudo que você queria saber sobre a categoria Intermediária mas tinha medo de perguntar

  1. O Rafaelli não tem capacidade acrobatica pra mudar de categoria e esta escrevendo com a logica mostrada pelos seus idolos ex presidentas…hahahaha desculpe meu amigo Filipi mas tentando fazer guerra de classes na acrobacia??? Acho que temos que aumentar sua dose de Ritalina!!!!

    • Xerifinho! Primeira coisa, acenda a churrasqueira em São João que eu chego.

      Segunda coisa, agora é uma dica, vá direto para a intermediária, você tem avião para isso, ganhará troféu com mais facilidade.

  2. Um cara que diz que SNAP ROLL é ‘bobagem’ definitivamente não sabe bem o que é acrobacia de competição!!!
    Meu amigo, o snap roll é a manobra que MAIS MOSTRA se o cara tem o avião na mão ou é apenas um domingueiro.
    Parafuso não quer dizer muita coisa, é uma manobra que TODO aluno de aeroclube deveria saber ainda no curso de PP!
    O dia que vc conseguir parar um snap roll cravado, aí vc volte para detonar a categoria.
    Por enquanto está falando apenas do que não sabe.

  3. Bom, a categoria Intermediária pode ter um nome pouco estimulante, mas ela tem o Programa Desconhecido.
    E é a sequencia desconhecida que separa os homens dos meninos!

  4. Me gusta este artículo. Por lo que entendí, es una sátira entre amigos, muy espirituosa. Debe ser divertido un campeonato en Brasil.
    Podríamos tener este tipo de análisis también entre pilotos de línea aérea, sería maravilloso desnudar la espiritualidad de un comandante.
    O para los pilotos ejecutivos entonces, sería aún más hilarante. Jajajaja

Comentários

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