Um voo fora do padrão

Nesse mundo atual, em que somos fiscalizados até dentro de casa, e onde muitas pessoas problematizam tantas coisas simples, resolvemos abrir espaço para um veterano contar alguma experiência de vida. Ele é ninguém menos que Alberto Bertelli. Um piloto e mestre acima de qualquer suspeita.

Trata-se de um pequeno caso, ocorrido quando ele residiu na cidade de Registro-SP. Acompanhemos a narração, feita com a simplicidade de antigamente:

“No primeiro dia do ano de 1952, tínhamos feito uma farra brava, meu irmão, eu, e alguns amigos. Eu tinha bebido até perder a consciência. Levaram-me para casa. Os que me transportavam deveriam estar como eu, porque me largaram na escada da entrada de minha casa e deram o fora. Minha mulher não escutou, ou fez que não escutou. Dormi ali mesmo, e, de madrugada, acordei com um monte de japoneses à minha volta.

Um trator tinha virado em cima de um deles, e precisavam levá-lo urgente para um médico em São Paulo. Estava chovendo, eu estava todo molhado.

No lugar em que eu tinha dormido, chovia. Eu sentia um gosto de ‘corrimão de pensão’ na boca.

Entrei em casa cambaleando. Estava ainda bêbado. Troquei de roupa, tomei um café e fomos para o campo.

Com a ajuda dos japoneses, tirei o Bonanza para fora do hangar. Colocamos o acidentado no banco traseiro e mais um na frente.

Tudo que era preciso fazer, eu pensava duas ou três vezes. Coloquei o motor em movimento, esperei aquecer. Fazia uma confusão danada com os instrumentos.

A chuva continuava, o campo estava alagado, o motor aqueceu. Chequei tudo fora de sequência. Ajeitei-me na reta da pista. Ataquei o motor.

Água espirrava por todos os lados. Decolei. Trem em cima, acertei o passo da hélice, motor regime.

Chovia, mas o teto estava alto. Sabia que não deveria entrar instrumento, porque não daria conta. Estava muito ‘grogue’ e com sono. Derivei para a direita para ir pela praia. Não entraria em instrumento em hipótese alguma. Caso não chegasse em São Paulo, iria para Santos.

O vale, entre a serra de Juréia e Itatins, tem uns 20 quilômetros de largura, e precisei caprichar na pontaria para acertar o meio. Saindo em Peruíbe, a serra estava toda aberta, rumo 30º, São Paulo à frente.

Falei com a torre e ela pediu confirmação se eu era o piloto. Deve ter estranhado a minha voz, ainda bêbado.

Aterrei, providenciei um táxi para os caras, entrei no Bonanza, fechei a porta, deitei no banco traseiro e dormi gostoso até o meio dia.

Acordei, fui ao bar e tomei umas três águas tônicas. Decolei, fui embora para curtir em casa o resto da ressaca.”

 

Alberto Bertelli

(Obs: não tente imitar)

Texto e imagens extraídos da autobiografia “Alberto Bertelli, uma vida de cabeça para baixo”. Editora Asa, 1999

 

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