Ainda sobre as estatísticas de experimentais

No nosso post anterior, compartilhamos um estudo acadêmico contendo uma série de gráficos e estatísticas, dentre os quais alguns apresentavam índices de acidentes entre aviões certificados e experimentais.

O texto foi bem recebido entre muitos, e não agradou a outros. Por isso, vamos ‘mastigar’ mais um pouco o que foi escrito lá.

Quase metade do artigo apresenta uma resumida e óbvia explicação sobre o que consiste a aviação experimental. Essa parte ninguém contestou.

O que gerou controvérsia foram duas questões: 1) que a conclusão sobre o “menor índice de acidentes entre experimentais” teria sido ‘achismo’ do artigo, e não estava no estudo original, e 2) que a pesquisa teria misturado num mesmo conjunto todos os setores da aviação homologada, que possuem características e operações muito distintas entre si, e por isso não poderiam ser comparados à experimental.

Com relação à objeção ‘1’, esclarecemos não haver no texto afirmação no sentido de ser ‘menor a taxa de acidentes’ na experimental – o que se afirmou foi que, com base nos dados, nada indica que há excesso de acidentes na aviação experimental (o que já desmonta a lenda midiática). Foi escrito com essas palavras: não há estatísticas a indicar que os aviões experimentais sejam mais inseguros que os aviões homologados“.

Ocorre que muitas pessoas nesse país possuem dificuldade com interpretação de texto, e, ao lerem a afirmação “não há estatísticas que comprovem que experimentais se acidentam mais” entenderam que estávamos falando que “homologados é que se acidentam mais que experimentais” (afirmação que não está em nenhum lugar do texto).

Óbvio que, além de mencionar o que o autor escreveu, levantamos questões adicionais que não estavam no texto dele, mas que eram perfeitamente dedutíveis dos gráficos que ele colocou no estudo. Isso é perfeitamente admissível num debate. Não há nada de errado em tomar um estudo como base para expandir ainda mais aquilo que nele foi tratado (coisa comum entre pesquisadores).

Por outro lado, é justamente a afirmação “não há estatísticas que comprovem que experimentais se acidentam mais” que coloca na parede a atual política da ANAC, que promove restrições cada vez maiores para aviões experimentais, sem nenhum estudo que comprove que eles sejam tão inseguros como dizem. Se conseguirem estatísticas, ok. Mas até agora, não há essas estatísticas que provem que “experimentais causam mais acidentes”. A agência reguladora não explica de onde tira fatos e conclusões para fazer suas regras, e somos levados a pensar que estão motivando seus atos administrativos com achismo ou amadorismo, algo nada profissional.

Com relação à objeção ‘2’, o fato de no estudo “não ter sido feita separação entre os diferentes tipos de operações realizadas pela aviação homologada” não invalida a ideia geral do debate. Isso porque também na aviação experimental há diferenças a depender de cada nicho e cada tipo de voo, e nenhuma dessas diferenças é levada em conta na hora de imporem restrições.

Obviamente, um ultraleve ‘tubo e tela’ com motor automotivo é diferente de um avião com milhares de kits vendidos no mundo e equipado com motor aeronáutico – e ambos também são diferentes de um grande ‘CompAir’ turboélice, que sequer pertence ao ramo da aviação desportiva. O que dizer então de aviões que são homologados no exterior, mas que aqui são registrados como experimentais por uma questão de simplificação burocrática?

São distinções que a ANAC não faz, e na hora de proibir, nivela por baixo. É como um governante que resolvesse proibir todos os homens de chegar perto de mulheres, só porque meia dúzia de loucos agridem mulheres.

Então, se eles tratam genericamente, no texto escrevemos genericamente também.

Sabemos que avião é avião, independente da classificação, mas, para debater com gente assim, você tem que usar a linguagem que eles entendem.

 

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